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Parade

Mariah Carey teve um enorme sucesso – então veio o divórcio, a crise de confiança e um colapso. Por Dotson Rader.



“Quando estava crescendo, eu me sentia presa em um mundo que não era apropriado para mim”, disse Mariah Carey. “O que via ao meu redor era assustador e não era onde eu queria estar. Eu me recusei a aceitar que aquele seria o meu futuro.”

O que Carey viu ao seu redor – e do que ela ansiosamente queria escapar – foi intolerância, abuso, pobreza. Ela queria criar um futuro muito diferente para ela. A música foi o meio que ela utilizou para isso. “Eu tinha um objetivo”, ela disse. “Eu sabia que queria cantar. Isso era mais do que um sonho para mim. Era uma prece que eu rezava com todo meu coração. Era algo em que eu verdadeiramente acreditava que aconteceria, e aconteceu.”

Mariah Carey, 35, é dita a cantora mais popular de todos os tempos. Desde o lançamento do seu primeiro disco aos 20 anos, ela vendeu mais de 150 milhões de álbuns e teve mais singles No. 1 do que qualquer outro cantor, exceto Elvis Presley. Mas, Carey disse, “Eu não me sentia digna de ser feliz. Um dia, eu olhei ao meu redor e pensei, ‘Por que eu esperava que se tivesse, seria feliz também?’”.

Quatro anos atrás, o mundo brilhante que Carey trabalhou duro para criar começou a sair de controle. Seu filme e CD Glitter fracassaram. Sua gravadora, Virgin, respondeu pagando-a para sair. Seu romance de três anos com o cantor mexicano Luis Miguel terminou. Seu pai faleceu de câncer. No ápice de todos esses problemas, ela teve um colapso físico e emocional que a levou ao hospital. Muitas pessoas na indústria da música disseram que sua carreira estava no fim. Ela estava mal, e sabia disso.

“Eu precisava do foco e da determinação que tinha antes”, ela disse, “eu queria a fé de volta”. Carey voltou agora com The Emancipation of Mimi (“Mimi” é um apelido de Mariah), um ótimo novo CD com adoráveis baladas R&B e hip-hop dançantes, tudo escrito por ela. Um enorme sucesso, o álbum teve a maior vendagem em primeira semana entre todos os 10 álbuns de estúdio dela.

A mais nova de três crianças nascidas em uma família birracial, Carey foi criada com dificuldades em Hungtington, N.Y., não muito longe de New York City. Seu pai, Alfred, era engenheiro da aeronáutica. Sua mãe, Patrícia, 67, às vezes cantora, é de descendência católica e irlandesa. “Minha mãe se apaixonou por meu pai e essa foi uma situação controversa, porque ele era negro”, disse Carey. “Ela cresceu em um ambiente muito rígido, estudou em escola de freira, e casar-se com meu pai foi um ato de rebeldia. Houve muito preconceito.”

Quando Mariah tinha 3 anos, seus pais tiveram um amargo divórcio. E com ele vieram disputas de família, problemas financeiros e insegurança. “Eu cresci sem nada”, Mariah disse. “Minha mãe batalhou para nos dar o básico. Eu nunca sabia quando o tapete seria puxado sob mim. Ainda assim, provavelmente foi melhor ter ficado com a minha mãe do que com meu pai. Ele pensava que meu sonho de cantar nunca se realizaria. Foi a minha mãe quem me ensinou como cantar.” Então ela sorriu. “Meu pai me ensinou como assobiar.”

“Eu comecei a cantar quando comecei a falar”, ela continuou. “Eu sempre tive esse desejo de estar perto da música. Eu a absorvia como uma esponja. Eu ouvia minha mãe cantando Rigoletto pela casa, e depois ouvia ‘Call Me’ de Al Green no rádio. À noite, eu ouvia rádio debaixo das cobertas e cantava junto. O rádio era meu amigo, falava só para mim. A música era um dom!”

A música também era uma fuga do preconceito racial que ela sofria. “Eu ia a uma loja com o meu pai”, ela disse, “e as pessoas ficavam olhando, você sabe. Ou eu estava com a minha mãe, que tem uma aparência muito irlandesa, e eu sou uma mistura, e as pessoas perguntavam, ‘O que o seu pai é?’. O medo, o senso de inadequação, o sentimento de não ser totalmente aceita – eu sentia isso tudo. Você chega a uma certa idade, e não conta mais tudo a seus pais”, ela continuou. “Era embaraçoso dizer, ‘Bem, eu realmente me senti feia no colégio hoje. Meu cabelo estava preso em nós.’ Você cresce assistindo Gatinhas & Gatões e querendo ser a garota popular. Você olha para as outras crianças e pensa, ‘Onde eu me encaixo?’ Eu me sentia excluída.”

Quando Carey tinha 13 anos, ela conseguiu seu primeiro trabalho pago. “Eu ganhava dinheiro para fazer vocais de fundo”, ela disse. “Eu pensei, ‘Isso é incrível. É outro mundo!’ Eu comecei fazendo jingles, e depois eu fiz demos de músicas de compositores porque também sou uma boa imitadora. Se o som do momento era um pouco fraco e nasal [ela canta uma escala em vibrato], bem, eu posso fazer isso. Ou eu posso fazer um som mais suave, como Olívia Newton-John, que é a minha voz natural. Eu comecei a pensar, ‘Eu posso escrever músicas melhores do que estas’, e comecei a compor músicas.”

Em 1987, após graduar-se no colegial, Carey mudou-se para Manhattan. Ela tinha 17 anos, muita ambição, e uma linda voz de uma virtuosidade incrível sobre um alcance de impressionantes cinco-oitavas. No ano seguinte, Carey estava com contrato assinado com a Columbia Records por Tommy Mottola da Sony Music. Em dois anos, sua música ajudou a fazer de Mottola o homem mais poderoso no mundo da música, e rendeu a ela fama e muito dinheiro.

Seu álbum de estréia, Mariah Carey, lançado em 1990, vendeu 9 milhões de cópias e teve quatro consecutivos singles No. 1. Carey disse que sua longa parceria com a Columbia/Sony rendeu à companhia mais de 1 bilhão de dólares. Mottola, 20 anos mais velho que Carey, era casado e tinha dois filhos quando eles se conheceram. Carey ainda era virgem. “Não sou uma garota promiscua”, ela disse. “Eu acredito que isso é motivo de orgulho.”

Em 1993, Carey casou-se com Mottola, que era o então presidente da Sony Music Entertainment, e eles construíram uma enorme mansão em um terreno de 50 acres em Tony Bedford, N.Y.. Carey pagou pela metade de tudo. “No início, foi fácil me encantar por ele”, ela disse. “Ele acreditava totalmente em mim como artista. Ele representava uma estabilidade que nunca tive. Eu o amava e me preocupava com ele.”

Ela fez uma pausa por um momento, em seguida disse: “Quando veio a fama, ele não conseguiu lidar com isso. Eu era tratada quase como uma prisioneira. Todos ao meu redor morriam de medo dele. Fiquei muito assustada. Eu era como uma obsessão e uma posse.” Ela se separou de Mottola, e eles se divorciaram em 1998. “Quando nos casamos”, ela disse, “eu realmente pensei que seria para sempre. Eu queria que alguém tivesse me dado um tapa na cara.”

Durante este tumulto matrimonial, Carey compareceu ao baile para o The Fresh Air Fund, que provê férias gratuitas no campo para crianças desprivilegiadas de New York. (Quando era adolescente, ela passava férias em um desses campos. Agora existe um Acampamento Mariah em Fishkill, N.Y., em homenagem a ela.) Naquela noite, ela conheceu Derek Jeter. Um subseqüente romance com o jogador do Yankees alterou a forma como ela se compreendia. “Os pais de Derek são como os meus”, Carey disse. “O pai dele é negro, a mãe é irlandesa. Então quando eu vi como a família dele era maravilhosa, isso me deu esperança. Eu percebi que colocava a culpa de todos os problemas da minha vida em ter crescido sendo birracial. A família de Derek funcionava muito bem como uma unidade, e eu nunca havia visto isso antes. Eu olhei para Derek e isso mudou a minha percepção.” Mas o romance terminou em menos de um ano. Por que tão breve? “Era o momento errado”, ela disse calmamente. “Nossos dois mundos eram demais para aquele momento.”

Em 1999, ela começou a namorar Luis Miguel. Este relacionamento durou, com idas e vindas, até a carreira dela ruiu. Mariah reagiu trabalhando compulsivamente em tempo integral e muito pouco sono. E então ela ruiu por dentro também.

Eu perguntei o que havia a sustentado durante o colapso. Ela lembra-se de uma memória da infância: “Isso foi quando eu tinha 4 anos. As brigas dos meus pais, loucura – que seja – acontecia na minha casa. Todos estavam chorando. Chegou a um ponto onde a polícia foi chamada. Para se ter uma idéia do quão intenso era. Então alguém pediu a Nana Reese que viesse à casa, porque precisávamos dela.”

Sarah “Nana” Cole Reese, tia de seu pai, era uma pastora Pentecostal. “Nana era de verdade quem apaziguava as brigas”, Carey disse. “Ela colocou as mãos em mim e eu senti naquele momento uma conexão entre nós. Ela disse, ‘Você vai ficar bem. Todos os seus sonhos irão tornar-se realidade.’.”

“A fé que Nana Resse e minha mãe tinham em mim me sustentou”, ela disse. “E porque sei que não sou perfeita, tive que aprender a perdoar. Eu tentei, de coração, perdoar qualquer um que sinto que agiu errado comigo, porque eu espero que as pessoas que sintam que errei com elas, perdoem-me. Eu quero ser alguém que saiba perdoar.”

Parade – 2005


traduzido por Vany


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