Mariah Brasil

Nova

Ave Mariah
Um dia, uma garota de 18 anos foi a uma festa e entregou uma fita demonstração, que produzira com o dinheiro emprestado pelo irmão, a um alto executivo da indústria do disco. Nem bem começou a ouvir a fita, a caminho de casa, o executivo pediu para o motorista da limousine dar a marcha à ré e retornar à festa. Como a garota já tinha ido embora, deixou uma mensagem em sua secretária eletrônica. Cinco anos depois, em 1993, a já famosa Mariah Carey, ex-garçonete, casava-se com o homem que a tinha transformado numa estrela: Tommy Mottola, o atual presidente da Sony, vinte anos mais velho que ela. "Foi Brenda Starr, para quem eu fazia backing vocal, que me levou à festa", conta Mariah. "Ao ouvir a mensagem do Tommy, mal pude acreditar!".
Um conto de fadas, sem tirar nem pôr. Mas o melhor da história é que o término do casamento de quatro anos, em maio, não pôs um ponto final nos sonhos da Cinderela. A estrela de Mariah, 27 anos, continua brilhando forte: seu single mais recente, Honey, chegou ao primeiro lugar nas paradas americanas e seu álbum Butterfly promete atingir as mesmas marcas dos anteriores. Ao todo, desde 1990, Mariah, dona de um Grammy, o Oscar da música, já vendeu mais de 80 milhões de discos - entre dezenas de singles e seis álbuns. Mais do que Whitney Houston e Madonna.
O segredo? Um belo timbre de voz e um repertório de baladas pop românticas - que falam sempre de amor. Há pouco, porém, Mariah fez algumas mudanças na receita que vinha seguindo desde o início da carreira. Adotou uma imagem mais sexy, deixando de lado o ar de inocente, e passou a compor músicas que tem algo do rap - contrariando os executivos da gravadora, que sempre a aconselharam a evitar esse caminho. "Mas não estou ficando doida, nem mudando totalmente. Não é isso que as pessoas querem de mim", avisa.

Sozinha, sem o príncipe encantado.
Como dramas pessoais ajudam a vender discos, a separação e os conflitos interiores da cantora não escaparam do brilho dos refletores. No videoclipe Honey, Mariah, mostrando o corpo de maneira jamais vista, aparece rodeada de capangas vestidos de preto, num palácio que lembra uma prisão. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência: Mariah e Tommy viviam numa mansão de 10 milhões de dólares em Bedford, Nova Iorque, com um imenso estúdio de som, piscina aquecida, portões eletrônicos, guarda-costas e câmeras de vigilância.
Mariah, porém, evita críticas ao ex. Não é à toa: Mottola ainda hoje é o diretor da gravadora dela. Foi ele, dizem, quem criou a imagem de mulher ingênua, da qual agora procura se desvencilhar. "Não quero que pensem que estou falando mal dele ou tentando conquistar a simpatia das pessoas para mim", afirma. "Os problemas pessoais que enfrentei enquanto fazia o álbum Butterfly me desgastaram bastante, mas sou o tipo de pessoa que consegue mergulhar e se refugiar no trabalho."
A afirmação mais reveladora que faz sobre os motivos da separação é a descrição da sua vida quando conheceu Tommy Mottola. "Eu tinha meu próprio apartamento. Era independente. Ainda estava ligada ao meu passado. E vivia próxima dos amigos que me viram crescer." Embora continue dizendo que o marido é o seu melhor amigo, é fácil deduzir que, com o passar do tempo, começou a se sentir isolada, dependente e deprimida. Aos 20 anos, quando a maioria das mulheres está imersa numa viagem de autoconhecimento, ela vivia presa num castelo encantado.
Com a separação, as coisas mudaram. Da noite para o dia, Mariah virou alvo dos paparazzi e das colunas de fofocas da imprensa. Uma foto dos bastidores da filmagem de Honey, feita enquanto o cabeleireiro ajeitava seu cabelo, foi parar num jornal australiano, com a seguinte legenda: "Mariah se diverte na praia com um homem misterioso". Agora, todo sujeito de quem se aproxima é tachado de novo namorado, um atrás do outro. Em parte, claro, isso decore do fato de ter passado anos reclusa, sem circular pela noite como tem feito ultimamente. "Mas eu não preciso dormir com 100 caras para descontar o tempo perdido", argumenta. "Se me ligar a alguém, será por amor, não porque sinto necessidade de cair matando." Declarando-se preocupada com seu crescimento pessoal, ela dá o seguinte conselho para as mulheres que estão se divorciando: "Não procurem outro homem correndo, não mergulhem na vingança, olhem para si mesmas e tentem tirar coisas positivas da experiência".

Os tempos pré-Cinderela.
Mariah é filha de um venezuelano negro, engenheiro da aeronáutica, Alfred, e de uma irlandesa, Patricia, que estudou canto mas teve que abrir mão do sonho de se tornar cantora de ópera para ganhar dinheiro. Morando em um bairro de brancos, em Long Island, Nova Iorque, a família sofreu muito com o preconceito racial. "Envenenaram nossos cachorros, punham fogo em nossos carros e batiam no meu irmão", recorda Mariah. Quando tinha apenas 2 anos, os pais se separaram. E a mãe, que já tinha cantado profissionalmente, foi obrigada a trocar o canto pelos variados empregos.
"Quando minha mãe ia para o trabalho, mandava meu irmão ficar cuidando de mim", conta. "Eu tinha 6 anos e ele, 16. Mas, como era irresponsável, saía com os amigos e me deixava sozinha, apavorada. Vi coisas terríveis na minha casa." Ela não entra em detalhes, mas as drogas faziam parte desse cenário terrível. "Eu podia ter me dado mal, mas tomei as decisões erradas. Dizia para mim mesma: 'Não vou ser como elas'."
Nessas circunstâncias, a música era seu refúgio. "Ela me empurrava pra frente, fazia com que me sentisse especial, me dava esperança", diz. Quando cursava o segundo grau, decidiu que ia se profissionalizar. Faltava às aulas para gravar fitas demo, ganhando com isso o apelido de "miragem". Com tanta determinação e uma boa dose de sorte, não demorou muito para chegar lá. Depois de trabalhar um tempinho como garçonete e chapeleira, foi fazer backing vocal da cantora Brenda Starr. Daí pra frente, como sabemos, começou a viver seu sonho.


Nova - março 98

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