Mariah Brasil

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É a cantora com mais discos vendidos no mundo, 150 milhões. Mais que Madonna, mais que as Spice Girls e as artistas adolescentes Britney Spears e Christina Aguilera. É a mulher que conseguiu colocar mais canções em primeiro lugar na Billboard. De fato, só a superam, os Beatles e Elvis Presley. Agora, aos 31 anos, Mariah Carey (pronunciado Maraya Cari) decidiu tentar a sorte em outra faceta profissional, a de atriz.
Mariah Carey
"Ainda sou uma moça insegura que começou sem dinheiro e vêm de uma origem familiar muito diferente"
Mariah Carey iniciou a transição para o mundo do cinema com passo firme , mas cauteloso. Seu primeiro filme "Glitter", é um drama musical onde interpreta uma jovem cantora que se transforma em estrela. Algo muito parecido com sua própria existência? Segundo Mariah, nada, absolutamente.
Seu novo álbum, a trilha sonora do filme, em que ela está trabalhando até o último minuto, estará a venda este mês, embora o vídeo clipe do primeiro single, "Loverboy" já pode ser visto em todo o mundo. Aqui, vem disposta a falar sobre tudo, exceto sua relação amorosa com o cantor mexicano Luís Miguel, com quem se comenta que está comprometida.
Chega à entrevista muito cansada e, embora sua maquiagem disfarce, sua atitude o torna evidente. Se joga num sofá de sua suíte no luxuoso hotel Pierre de Nova Iorque e se desculpa.
"Sinto não estar muito concentrada, depois de nove milhões de entrevistas e aparições na televisão, sem dormir há 3 semanas. Estou cansadíssima, mas tirando isso, iuauuu! - grita - estou ótima."

Para a história do filme, você se inspirou em fatos de sua vida?
Não, para nada. Todo mundo insiste que é a história da minha vida, mas não tem nada a ver comigo. è a história de uma garota que se chama Billie. Primeiro a vemos na infância, quando a separam de sua mãe, que é viciada em drogas. Sua mãe promete que voltará para ela. Procuram, para Billie, uma família adotiva, mas a mãe não volta nunca mais. Quando ela fica maior, é quando entro em cena, como Billie adulta. Há uma história de amor entre ela e um DJ, e todas as decisões que toma e os caminhos que escolhe são porque se sente abandonada por sua mãe e ela quer compreender o porquê. Ou seja, essa não é, em absoluto, a minha vida. E depois, a história tem lugar em 1982, quando eu estava quase no segundo grau. Não teria sentido. Não sou eu em nada. Minha mãe é a pessoa de quem me sinto mais perto. Acabo de falar com ela por telefone há cinco minutos. Eu cresci com minha mãe. Tenho outra vida louca, que seria uma grande história para um filme, mas não é esta.

Sua mãe, Patricia Hickey, americana de ascendência irlandesa, era cantora de ópera na New York City Opera. Não somente viver num lar tão voltado para a música teve uma decisiva influência em sua carreira. Também seu nome tem origem musical. Vem do filme "A lenda da cidade sem nome", cuja canção "They Call The Wind Mariah" é a favorita de sua mãe.

Como sua mãe influenciou na sua formação como cantora?
Ela me ensinou como cantar. Comecei a fazê-lo ao mesmo tempo em que aprendi a falar. Mas ela nunca me disse "você tem que educar a voz". Não me impôs uma formação clássica. Ela fazia canto clássico, muito diferente do que eu faço. Mas nunca me forçou a seguir algo mais formal.
Se sentiu tentada alguma vez? Muitos afirmam que com seu alcance de voz (dizem que sua voz alcança 5 escalas) teria possibilidades como soprano...
Obrigada... Não, necessitaria muita preparação e para mim, música vem de outro lado: não quero sentir-me preparada. Gosto de colher idéias de forma inesperada, cantar a mesma canção de várias maneiras, cada vez. E depois, eu sou autora de canções quase antes de ser cantora e gosto de interpretar meus trabalhos sempre de maneira diferente.
Por que decidiu ambientar o filme nos anos 80? Você gosta da música desta época?
O começo dos 80 é uma época em que eu cresci escutando música. Há 3 anos atrás alguns me diziam que estava louca, que não estavam preparados para voltar aos 80, que seria melhor ambientá-lo na época atual. E eu vejo o que acontece agora: os 80 voltaram, a música, a moda... Só tem que observar meu penteado (um pouco a Farrah Fawcett embora sem tanto volume) e meu colar (uma corrente com um enorme "Glitter" escrito em dourado).
O que achou da sua primeira experiência em filme?
Foi muito interessante, porque é muito diferente do que eu estava acostumada. Eu controlo muito minha música e como escrevi as canções para o filme, tive um pouco mais de controle sobre ele do que outras pessoas tiveram. No filme que estou fazendo agora é muito diferente, porque chego, faço o que tenho que fazer e vou embora. É um filme independente. Chama-se "Wise Girls" e a protagonista é Mira Sorvino. É uma grande experiência, muito libertadora, porque interpreto uma personagem que não é uma cantora, e sim uma garçonete traficante de drogas. E eu chego, faço meu trabalho e deixo que os demais façam o deles.
Foi difícil atuar na frente das câmeras ou foi algo que aconteceu de forma natural?
Foi algo bastante natural para mim. Desde que era pequena sempre quis atuar. Eu participava em todas as peças de teatro da escola. Houve um época em que quis voltar a estudar, simplesmente para mim. Não era o momento ideal, porque estava numa relação e não era muito livre. (Estava casada com o presidente da Sony, Tommy Mottola, de quem se divorciou em 1998.) Mas achei que tinha que fazê-lo por mim mesma, para manter minha estabilidade mental. E comecei a estudar interpretação. Minha professora me ajudou muito, me fez sentir mais livre como pessoa e me ajudou a deixar de bloquear minhas emoções. Ou seja, fazendo ou não um filme, estudar interpretação foi uma experiência reparadora, porque busca coisas no seu interior e te analisa. É terapêutico. Me dá paz interior.
Sabemos que houve ofertas para cinema antes desta. Você se arrepende de não ter as aceitado, de ter esperado até agora?
Não. Foi simplesmente que as pessoas não entendiam que eu só queria um papel secundário, ou trabalhos independentes. Me viam como Mariah, a cantora.
Fazem 11 anos que você gravou seu primeiro disco e aos seus 31 anos já te chamam diva. Isso te incomoda?
Creio que o mundo seria um lugar melhor se não houvesse rótulos, mas este é o mundo em que vivemos. Eu, de verdade, não posso me preocupar com essas coisas. São tão estúpidas!
Você se sente mais livre agora que é uma artista conhecida mundialmente?
Em meu primeiro álbum me disseram: "Precisamos de outra canção pop", e eu escrevi "Love Takes Time", que foi número um, ainda que não seja uma das minhas preferidas. Eu a escrevi porque queriam outra canção pop. Também, no princípio, me vi rodeada de produtores que me fizeram perder parte da minha identidade. Creio que estou muito melhor agora, produzindo meus próprios álbuns.
Como você mudou, profissional e pessoalmente, desde esse primeiro álbum?
De alguma maneira, ainda sou essa moça insegura, que começou sem dinheiro e vem de uma origem familiar muito diferente que criou muitas destas inseguranças que tenho. Acho que não perdi esse aspecto e me parece que por essa razão eu trabalho tão duro. Mas agora me sinto com muito mais poder, e crescida como pessoa. Eu aprendi a estar em contato com meus sentimentos. E devo dizer que grande parte disso tudo tem a ver com a experiência de ter estudado interpretação e ter aprendido por minha conta. Isso me fez suficientemente forte para superar muitas coisas. Segui esta profissão porque gostava de cantar e escrever canções, mas não sabia nada no que isso implicava. Agora, continuo cantando e compondo, mas também cuido de muitos assuntos de negócios, que não é que eu goste mas sei como fazê-lo.
Começou na sua carreira quando era bastante jovem. Você acha que perdeu a "vida normal" que gente comum tem?
Sim, mas nunca tive uma vida como gente normal, porque venho de uma família de mistura racial e isso marca um pouco toda a sua existência. De modo que sim, eu perdi muitas coisas, mas também tive muitas outras pelas quais sou agradecida. Lamento alguns episódios, mas sabe de uma coisa? Estou convencida de que tudo tem uma razão de ser e que tudo o que aconteceu eram lições que eu precisava aprender.

Carey faz referências constantes a sua origem familiar. Seu pai, Alfred Roy Carey, era negro, de ascendência afro-americana e venezuelana, e sua mãe era branca. O casal, que vivia numa zona residencial de Long Island, perto de Nova Iorque, se divorciou quando Mariah tinha três anos, devido em parte a pressão racial que sofriam, e que lhe custaram o envenenamento de seu cachorro e encontrar seu carro destruído. A irmã mais velha de Mariah foi com seu pai, seu irmão ingressou na universidade e ela ficou com sua mãe, sem muito dinheiro para se manterem.

Como você acredita que a indústria discográfica está mudando com a Internet, com Napster, com os avanços tecnológicos?
Está mudando completamente. Creio que dentro de alguns anos as companhias discográficas ficarão obsoletas.
Você vê isso positivamente?
Bem, deixe-me dizer-lhe que gostaria de ver como ficarão algumas companhias... Melhor não mencionar nomes! Mas estamos muito longe de que isso ocorra porque as pessoas vão continuar querendo ter algo para tocar. Eu gosto de ter o pacote completo, as fotos, letras.... como objeto para colecionadores. Há pessoas experientes nisso, como Prince, que é absolutamente brilhante e que podia dar uma palestra sobre isso. Mas eu não sou suficientemente inteligente para poder dissertar sobre isto.
E falando de colecionadores. É verdade que você comprou o piano de Marilyn Monroe?
É verdade. É um piano de meia cauda, laqueado, de cor branca.
Onde ele está?
Em minha casa, mas quero que vá para um museu algum dia. Sou fã de Marilyn Monroe desde que era menina. Era o piano de sua mãe. Não gostaria que leiloassem seus pertences. Não creio que seja correto, mas como não tinha família... Sei que o piano tinha um significado especial para ela porque li em sua biografia. Ali conta "como resgatei meu piano" e explica que pertencia a sua mãe e era uma das poucas coisas que considerava de sua infância. É uma história muito triste. E lá está, em meu apartamento. Não me atrevo a tocá-lo. Não quero nem afiná-lo porque perderia sua essência.
Entre tantas viagens, a que lugar você chama de casa?
Meu apartamento, é no sul de Manhattan. Sou de Nova Iorque e esse sempre será o meu lar. Mas há algo especial nos próximos à água. Me dão sensação de aconchego. Quando não tinha apartamento, qualquer lugar próximo da água, eu considerava meu lar. Até o oceano!
O que teria feito de sua vida profissional se não pudesse ser cantora?
Seguiria cantando, onde fosse, no chuveiro... Desde que tinha 14 anos venho gravando cassetes de demonstração para as pessoas. Creio que de alguma maneira continuaria a fazê-lo. Talvez trabalhasse numa rádio! Ou seria cabeleireira!

Magazine - Agosto 2001


traduzido por Vany


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