O que é necessário para que um álbum de sucesso contenha pop, dance, R&B e hip-hop? Uma artista única, vocais fenomenais, excelente produção, contribuições de convidados talentosos e aquela brilhante qualidade que o hip-hop (e agora o Dicionário de Inglês Oxford) brincando dá o nome de bling-bling (algo caro; brilhante, especialmente jóias ou roupas chamativas). “Definitivamente há bling no álbum”, admite Mariah Carey, divertindo-se. Ela está falando sobre o seu mais recente e, possivelmente, melhor álbum, The Emancipation of Mimi (Island Def Jam). Jermaine Dupri, The Neptunes, Kanye West, Twista, Snoop Dogg e Nelly, todos contribuíram, e a voz sete-oitavas impecável de Carey com arranjada e texturizada em uma nova forma para o século 21. E sim, o álbum está estourando como o bling-bling de jóias. “Eu gosto de bling”, Carey ri. “O álbum tem uma certa qualidade que quando você o coloca para tocar, ele ilumina o momento.”
Carey, cujos amigos mais próximos e família chamam de Mimi, tem muito trabalho a fazer hoje, mas a simpática e consciente diva arranjou um tempinho para uma entrevista “gay”. “Houve uma época onde tudo o que eu podia fazer era ir a boates gay”, ela recorda-se, “porque meu marido tinha medo que eu ficasse entre heteros.”) O álbum é cativante, o primeiro single, produzido por Jermaine Dupri, “It’s Like That”, já está estourando das paradas e nas pistas de dança. David Morales fez uma mágica remixando a música para as boates e também produziu um remix de nove minutos de “Say Sometin’” que será lançado no futuro. Entre outras excelentes faixas dançantes do álbum estão “Shake It Off”, a divertida batida dos anos 80 em “Get Your Number” e a gostosa super-bling “To The Floor”.
“Este é principalmente um disco de festa”, Carey diz. “Desde a época em que eu estava no colégio, o processo de me maquiar e me arrumar para sair... esses são momentos em que você quer colocar um disco e animar-se com o que quer que seja que você irá fazer. Eu queria fazer um disco que refletisse isso.”
Ainda, Emancipation é contra-balanceado com algumas baladas e faixas mais lentas. “As músicas fluem muito bem”, Carey insiste. “Por exemplo, você está saindo, você está voltando da noite, e então outra música te coloca pra cima novamente.”
Como em todos seus álbuns anteriores, Carey co-escreveu cada música de Emancipation. Portanto, de onde vieram todas aquelas canções de coração partido? “Experiências passadas, querido”, ela ri. “Você tenta pegar esses momentos e transformá-los em alguma coisa, porque senão você fica muito amarga!”
“Shake It Off” mostra uma visão bem-humorada quanto a amargura – e, mais especificamente, a traição – com letras como “I gotta shake you off/ just like a Calgon commercial” (“Eu tenho que me livrar de você/ igual ao comercial da Calgon”). “Essa é provavelmente uma das minhas músicas favoritas do álbum”, ela admite. “‘Shake It Off’ pode ser aplicada a qualquer coisa. Qualquer drama pessoal por que passamos, coloque essa música e faça passar a ansiedade ou intensidade do momento. Eu escutarei essa música quando sair de uma reunião irritante. Tenho que me livrar dela.”
Emancipation não é intrinsecamente um álbum conceito, mas ele definitivamente vê Carey se livrando do que o público espera. “Todos esperaram um álbum com um nome como Rainbow (Arco-Íris) ou Butterfly (Borboleta)”, ela explica. “Então eu pensei que The Emancipation of Mimi (A Emancipação de Mimi) era legal – que era o meu lado Mimi aparecendo em oposição à celebridade ou estigma ‘Mariah Carey’, ou quaisquer preconceitos que as pessoas tenham de mim como essa pessoa. Dessa vez eu realmente experimentei e brinquei com como meus vocais soavam como um todo.” Dito isso, fãs de longa data encontrarão muitas das assinaturas vocais dela e os versos “dramáticos” em músicas como “Mine Again”, “Joy Ride” e “I Wish You Knew”.
Nativa de Long Island, a vida de Carey na música começou no momento em que ela nasceu: a mãe dela lhe deu o nome por causa da música “They Call the Wind Mariah”. A mãe também ajudou a introduzir gradualmente em Carey um senso de receptividade e aceitação. “Eu sempre tentei não julgar as pessoas”, ela explica. “Por minha mãe ser uma diva da ópera, artista, uma garota que adorava qualquer um meio rebelde do Meio-Oeste que se casou com um homem negro e que tinha, predominantemente, amigos gays. Isso nunca pareceu ser algo errado ou estranho para mim. Era um tipo de vibração amorosa que eu sentia. Eu basicamente fui criada por dois homens gays, Ernie e Mort, que eram os melhores amigos. Quando nós não tínhamos um lugar para ficar, nós ficávamos com eles. Por isso que sinto como se Deus reconhecesse todos nós como seres humanos e nos ama como nós somos.”
Carey começou a cantar aos quatro anos, escrevia músicas no colégio e mudou-se para New York City após concluir o colegial para tentar uma carreira na música. Ela admite que amor – e sexo – estavam em segundo plano durante a maior parte da sua juventude. “Eu sou meio prudente, especialmente com rapazes hetero porque eles podem ser cachorros”, ela admite. “Minha irmã teve um filho aos 15 anos – eu sou grata que ela tenha o tido porque o filho dela é uma pessoa incrível, mas eu vi o que acontecia com isso e fiz um esforço consciente para me concentrar na minha carreira. E as pessoas riam de mim porque eu era aquela garota virgem que usava vestidos justos. Eles falavam algo tipo ‘Que contração é essa?’ Então [em termos de experimentações sexuais] eu não fui a garota mais exploradora na terra. Sei que isso é entediante para os leitores!”
Seu álbum auto-entitulado estreou em 1990 e lançou Carey na estratosfera do pop (e no repertório de dublagem de drag queens) onde ela permaneceu até 2001 com o mau-falado filme Glitter e uma série de problemas pessoais/públicos (sem citar o falecimento de seu pai e o fim do namoro com Luis Miguel).
Carey olha para trás para aquele típico período merecedor de um programa Behind the Music “como algo que aconteceu na minha vida. Aquele período foi exagerado fora das proporções. Aquele filme e a trilha-sonora – que continha algumas músicas muito boas que um dia eu terei que relançá-las – o fato de que foram lançados 11 de Setembro, as pessoas tinham que lembrar disso. Como poderíamos esperar qualquer coisa disso? Eu fui um bode expiatório em muitos sentidos para apresentadores de tv que queriam fugir das coisas sérias que estavam acontecendo no mundo. Nós todos passamos por nossos testes para ver o quão forte somos e chegarmos ao outro lado”.
Ela agora está definitivamente do outro lado, e Carey diz que ela deve isso a Deus e sua espiritualidade. A última música de Emancipation, “Fly Like a Bird”, contém um pouco de gospel e soul, além de muitos agradecimentos a um poder maior. O pastor dela até mesmo aparece na música. “Para mim a coisa mais importante é a mensagem que ele diz no início da música”, ela chama a atenção. “‘Weeping may endure for a night, but joy comes in the morning (O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem ao amanhecer)’. Eu sinto que muitas pessoas não ouvirão essa mensagem e muitas pessoas precisam. Não era parecer um sermão. Muitas pessoas ouvirão músicas que escrevo, que não as típicas ‘músicas de Mariah Carey’. ‘Outside’ é sobre ser birracial. Muitas pessoas se relacionam com ela porque se sentem com estranhos em suas vidas.”
Felizmente, Mariah tem uma série excitante de projetos para o futuro. Ela está considerando outra investida no cinema (sua performance no subestimado Wisegirls lhe rendeu a atenção de muitos produtores de filme), um possível disco de remixes, produzir uma música para o cantor de 12 anos Paul Robbins (eles aparecerão recentemente no programa da Oprah), e “existe um possível show de Natal para Broadway, baseado nas minhas músicas de Natal”. Brilhe, Mariah!