Sua vida pode ser um furacão fabuloso - um novo álbum, um novo filme, e um
novo amor - mas Mariah Carey tem tudo sobre total controle. Quase. A incansável
diva pop cinco-oitavas diminui o ritmo apenas o suficiente para conversar com
Thomas Beller. Fotografada por Gilles Bensimon.
1. Tempo e dinheiro Algums minutos antes da meia-noite, Mariah Carey saí
da sua limousine preta. Ela entra rapidamente no saguão do Manhattan's Tribeca
Gran Hotel, um segurança na frente, um assistente atrás. Ela está carregando
um buquê de rosas. Ela se move pelo saguão como um jato: suave, rápido,
reluzente, caro. Seu cabelo louro platino está preso em um rabo de cavalo. Ela
está vestindo uma jaqueta e um jeans apertado Sergio Valente. Seus sapatos são
sandálias, de salto alto, mas elas não diminuem sua velocidade. As palavras tempo
e dinheiro me vem a mente. Carey parece que tem muito pouco de um e
muito do outro. Sua empresária (também carregando flores) me aponta e Mariah
olha, faz um sinal de "só um minuto", e disaparece no elevador. O
episódio inteiro é como um rápido reflexo de luz de um bracelete de
diamantes.
"Deixe-me lhe dar um pequeno aviso", Carey diz quando eu entro no
seu quarto de hotel alguns minutos depois. Sua voz é baixa e rouca, quase um
sussurro. O quarto está cheio com uma quantidade de rosas que normalmente não
é vista fora de floriculturas. "Eu estou cansada", ela diz, embora
não pareça. "E eu quero que você diga quando eu precisar ser concisa,
porque o fato de estar exausta não ajuda muito para manter o assunto."
"Você já jantou?", eu pergunto.
"Não, E eu não tomei café da manhã ou almoço..." Ela
quase canta o "ou", é um grande, gesticulado, enfático
"ou". "Mas eu tenho uma barra da proteína que sobrou", ela
fala. "Isso não é glamoroso de mim?"
"Como o seu dia tem sido?", eu pergunto.
"Meu dia?", ela diz. "Meu dia equivaleu a uns três
dias!" Ela cai no sofá. Seu rosto está maquiado, sobrancelhas feitas. Há
purpurina em seu peito. Sua saia é preta e translucida - Givenchy - ela usa um
short preto em baixo. Ela acabou de voltar de uma reunião com executivos da sua
nova gravadora, Virgin, onde ela tocou para eles seu novo álbum, Glitter,
pela primeira vez. Como muitos fãs, Virgin comprou o disco de Carey sem saber o
que havia nele. Diferente de muitos fãs, disseram que eles pagaram uma valor
estimado de 23 milhões de dólares - o maior valor já pago por um único
álbum - pelo privilégio. "Eu fiz esse contrato sem que ninguém ouvisse
uma nota de música", ela diz.
"Eles estavam preocupados?", eu pergunto.
"Provavelmente", ela diz, com uma sobrancelha levantada, como se
precisasse dizer, você não ficaria?, Carey não parece preocupada. Aos
trinta e um anos, mais uma década depois da sua estréia em nos anos noventa,
ela é a vovó da nova classe de divas, de Britneys, Christinas e Destiny's
Childs para quem autosuficiencia e autoexposição estão completamente e
docememnte unidos com uma amplitude vocal multi-oitavas. A voz de Mariah ,
entretanto, é uma Howitzer se comparada com as pistolas d'água da maioria das
cantoras, sua nem tão secreta arma.
Virgin está arriscando, mas isso não é irracional: Carey vendeu mais de
140 milhões de discos desde Mariah Carey de 1990. Ela tem quinze single
número, colocando-a em terceiro lugar atrás dos Beatles (vinte) e Elvis
Presley (dezessete ou dezoito, dependendo se você contar "Don't Be
Cruel" e "Hound Dog" como um ou dois discos). Seus sucessos
passaram mais semanas (sessenta) no topo do que qualquer um desses, incluindo os
Beatles (cinquenta e nove). Ela teve uma música número para cada ano da
década de 90, e é a única artista solo a conseguir isso.
O novo disco é a trilha sonora de All That Glitters que estréia no
próximo mês, o qual ela estrela. É a história de uma menina miscigenada que
foi abandonada por seu pai branco, tirada da sua mãe negra, e criada por pais
adotivos. Quando adolescente ela sai para clubes em Mahattan, no ano de 1982, é
descoberta por um DJ, se apaixona, e se torna uma estrela. O caso termina mal;
ela procura por sua mãe perdida. O que é para ser dito é que é sobre alguém
com alguma semelhança com Carey. Além de fazer a trilha sonora e co-produzir o
filme, M.C. trabalhou junto com a roteirista Kate Lanier, que escreveu What's
Love Got to Do with It.
"Eu tive essa idéia quatro anos atrás", diz Carey. "E as
pessoas disseram, 'anos 80? Ninguém está preparado para os anos 80'. Eu disse,
'eu realmente acredito nos anos 80, porque é nostalgico'. Alguns dos executivos
estavam convencidos que era muito cedo, e as pessoas não estavam prontas para
isso. E eu disse, 'Confie em mim, elas estão'." De acordo com o diretor
Vondie Curtis Hall, "É um clássico paradigma Cinderella, como Funny
Girl". M.C., a Barbra Streisand do hip-hop.
"A maioria das mega-estrelas não tem tempo ou paciência para se
involver no desenvolvimento de um script", diz Lanier. "Mas Mariah ia
ao meu quarto de hotel, lia as páginas e me dava sugestões. Isso me
impressionou". Lanier diz que M.C. não era de forma alguma a pessoa que eu
esperava. "Eu estava pensando pop. Mas ela queria fazer uma coisa mais
obscura e inquietante. Eu não pensava que ela era tão sofisticada ou tão
inteligente, mas ela realmente é."
Tudo isso sugere que talvez Mariah não seja a estrela pop com voz de diva,
controlada por memtor por trás da cena, o que, honestamente, foi o que eu
vagamente pensei dela. A cultura pop de hoje é tão baseada no marketing, que
é difícil imaginar alguém como M.C. sem alguém guiando as rédias. E embora
ela tenha sido lançada pelo presidente da Sony Music Tommy Mottola, com quem
ela se casou em 1993 e se divorciou em 97, ela agora parece ser responsável
pelos seus próprios atos, compondo e produzindo discos, estrelando num filme
que copia a história da sua vida. Seu eufemismo para o casamento é "a
situação", e em que aparentemente implica, além da história da
Cinderella, é a história de Rapunzel: M.C. presa em seu castelo, em Bedford,
New York, desejando sair e ter controle sobre sua vida.
Bem, ela saiu. Sentada no sofá com um copo de vinho branco, pés para
cima, ela tem a questão da comida. Vinte e três milhões de dólares comprará
qualquer que seja o jantar que você desejar. O que M.C. deseja esta noite é
macarrão com queijo. "Não é o que eu deveria estar comendo", ela
diz, pegando o macarrão com o garfo. "Mas ei - eu comi uma barra de
proteína." Enquanto ela me conta sobre seu dia interminável, seu rosto
fica com um tímido orgulho, como se eu tivesse entrado em sua casa no meio das
renovações, mas ela irá me mostrar as coisas de qualquer forma, orgulhosa das
mudanças no caminho. É todo um trabalho em progresso.
Imediatamente eu noto as sobrancelhas e os olhos. Eles tem essa qualidade -
esperançosos, otimistas, surpreendidos, como se ela ainda não pudesse
acreditar na sua vida. Tudo mais da sua aparência emana uam vibração de ser
inteligente, forte, de saber o que está acontecendo. As reuniões, agentes,
contratos, os dois reluzentes aparelhos eletrônicos - pager e telefone celular
- que estão sobre o sofá. Seu cabelo, seu corpo, suas unhas, tudo diz
celebridade, mulher de negócios, diva. Mas seus olhos, particularmente,
suas sobrancelhas, dizem, Que merda! Você pode acreditar nisso?
"Eu estava na Espanha fazendo os vocais para a trilha sonora", ela
explica. "Eu saí do país por causa deste pager e deste
telefone" - ela os aponta como se eles fosse bichos de estimação
exigentes - "ficarão desligados. E então eu estou fora da área
lá".
Em Málaga, ela trabalhou num estúdio com quarto para ficar, só saindo
quando seu namorado, Luis Miguel, veio visitá-la. Ele é uma "enorme
superestrela latina", ela diz. "Nós ficamos cercados porque eles
todos amam ele. É claro", ela acrescenta recatadamente, "que eu tenho
alguns fãs na Espanha, também".
Eu pergunto se eles discutem seus passados. "Muitos homens não gostam
de contar sua história", ela diz. "Talvez seja uma coisa de poder?
Normalmente eu sou uma pessoa aberta. Quero dizer, eu tive coisas intensas
acontecendo para mim, mas eu não me envolvi com muitos homens. Eu poderia
contar em menos de uma mão os homens com quem estive na minha vida. Eu
realmente odeio pensar em ficar intimamente com alguém e então tudo está
acabado." Ela estala os dedos. Então ela era comportada no colégio?
"Bem, não. Enquanto criança, eu andava com roupas apertadas, e
maquiagem... Mas não era como eu tinha namorados sérios ou com quem eu só
estava ficando. Eu sabia que não iria me casar..." Ela olha para
cima, dá um sorriso. "Bem, eu me casei, mas eu sabia que não faria
aquela coisa de dona de casa."
2. O lugar seguro O pai de M.C. a deixou quando ela era uma criança que
aprendia a andar. Ela se mudou treze vezes enquanto crescia em Long Island com
um irmão e uma irmã mais velhos e sua mãe, Patricia, uma americana do meio
oeste com decendencia irlandesa cuja família nunca a perdoou por ter se casado
com um homem metade negro, metade venezuelano. Quando seus pais se conheceram,
Alfred Roy Carey era um "engenheiro da aeronautica descolado", como
diz M.C.; ela explica que agora ele não é mais descolado.
"Ele acha que tive um álbum", ela diz como se isso fosse a coisa
mais engraçada. "Honestamente, ele não sabe nenhuma das minhas
músicas!"
"Eu aposto que ele é um profundo conhecedor das suas conquistas",
eu digo.
"Profundo conhecedor?" ela diz. "Ele não sabe nehuma..."
Alguns minutos depois, M.C. está no chão rindo, e sua mãe, uma antes
cantora de ópera - agora morando numa casa no upstate em New York que M.C.
comprou para ela - está no viva-voz, confirmando que sim, "ele acha que
ela só fez um álbum".
"E como nós o chamamos?" M.C. pergunta. Elas dizem juntas: "O
álbum". M.C. está histérica. "Nós não podemos criticá-lo",
ela diz com a voz entrecortada. "Ele não liga muito para música."
Considerando que ela o conhece muito pouco, ela está falando com carinho real,
como se ele fosse um vizinho ecentrico.
O assunto do pai de M.C. faz Glitters parecer mais pessoal: a
história de uma Pobre Menina se Realizando misturada com uma história de Amor
e uma história de Pais Perdidos, e, finalmente, uma história Raças
Miscigenadas. "Há muitas meninas miscigenadas e jovens mulheres que tem
Mariah como uma heroína", diz Lanier. "Ela está orgulhosa disso. Por
um longo tempo ela foi encorajada a mostrar mais seu lado branco. Uma vez que
elaconseguiu sua liberdade criativa, ela se relacionou mais à cultura
negra."
Quando eu digo a M.C. que sua herança miscigenada parece, visualmente, muito
sutil, seu rosto abranda. "Bem, isso faz parte", ela diz. "Muitas
pessoas dizem coisas que elas não diriam se elas pensassem que alguém, você
sabe, negro estivesse na sala. Ou vice-versa. Ou alguém latino. Eu sou uma
mistura de muitas coisas. Por causa disso, eu nunca senti que tivesse alguém
com quem eu me identificasse."
Foi na época que seu casamento com Mottola se dissolveu que M.C.
começou a trabalhar com a professora de teatro Sheila Gray. Ela atuava quando
criança, mas em sua "outra situação", ela foi encorajada a se
concentrar só na sua música. "Sheila foi um dos catalisadores para me
ajudar a sair daquela situação", ela diz. "Eu era muito bloqueada,
emocionalmente. Eu sentei no chão e fiz exercícios de relaxamento, e
imediatamente comecei a chorar, porque ela disse para mim, 'Diga o nome de um
lugar onde você se sente segura'. 'Eu não tenho um'. Eu tinha, ao contrário
da crença popular, metade de tudo naquela mansão" - que ela dividiu com
Mottola - "e paguei a metade de tudo, até as contas de luz. Então eu não
tinha um lugar em que pensar. E ela disse, 'Bem use algo da sua
infância'." Uma coisa terrível que eu sei sobre a infância de M.C., o
que eu não trago à tona nessa festiva ocasião com vinho branco e macarrão
com queijo, é que, em um artigo de jornal, sua irmã falou sobre ter sido
protituta e viciada em drogas.
"Então", ela continua, "foi uma explosão de emoção, e eu
pensei, Uau! Isso me ajudou a perceber que isso não estava certo. [Sheila]
costumava sempre dizer, 'Relaxe seus ombros', porque eu andava como se tivesse
que lutar, constantemente. Eu cresci com a rédia solta. E de repente, era esta
situação enclausurada. Eu não seria a pessoa que sou se não tivesse voltado
nisso e ter entrado em contato comigo mesma. Não quero soar como discurso
pronto ou gasto..."
Muitos destes temas aparecem em "All That Glitters". "Eu acho
que as pessoas ficaram surpresas com sua atuação", diz Lanier. "Ela
é capaz de vencer muita dor e mostrar muita alma". Alma, entretanto, não
interfere em negócios.
"Eu pessoalmente me encontrei com todo mundo", diz M.C. sobre as
negociações com a gravadora. "Eu cresci com alguns dos mais inteligentes
e influentes homens de negócios". Antes que ela assinasse com a Virgin,
Carey se aconselhou com Lenny Kravits, quem ela conheceu quando ainda tinha
dezessete anos e dormia em sofás de amigos enquanto esperava por uma chance, e
com Prince, de quem ela é uma grande fã. "Eu aprendi muito. Alguém não
pode mentir para mim e dizer, 'Nós vamos fazer isso e isso', que eu vou dizer,
'Espere, quem é o seu distribuidor em Taiwan?'"
3. Um punhado de diamantes "Eu não dou nada!" A voz de 23
milhões de dólares ressoa do camarim do estúdio de Elle. O frenesi controlado
da sessão de fotos foi interrompido pela notícia de que M.C. tem que voar para
L.A. esta noite para promover seu filme. Os telefones celulares piam,
assistentes aglomeram-se, e um rapaz de terno permanece perto a uma maleta
guardando diamantes de Harry Winston.
"Ela está fazendo tudo junto", diz a publicitária de Carey.
"Tem o disco, o single, as promoções nas rádios, os clipes, o filme, o
próximo filme..." Os artigos anunciaram que M.C. irá estrelar com Mira
Sorvino em "Wise Girls", basicamente, "Wise Guys" com
mulheres. A lógica disso tudo é uma equação algebrica enormemente complexa,
um furacão.
Então o olho da tempestade emerge, de rabo-de-cavalo, jeans Levi's, um
cardigan verde com butões abrindo pelo seu peito. Ela está balançado sobre
chinelos rosas, um copo de champagne numa mão; na outra, os diamantes, pingando
e ofuscando. A última noite foi cheia. Esta é M.C. sem limites, sentindo-a.
Ela oferece um grande "A!" seguido de "Estou tendo a maior merda
de espiral da minha vida!"
Ela tem um telefone celular contra sua cabeça, e ela está falando com Busta
Rhymes, e pelo que parece, ele deve estar no seu próximo clipe. Ela me nota
rabiscando alguma coisa e, rindo diz "Você está me vendo no meu
maior..." Olhos salientes, ela se acalma e pára. Maior o que? Maior
perfeccionismo? Maior confiança? Maior psiquismo? Maior aborrecimento? Todas
essas opições? Ela tem um milhão de palavras a sua disposição; elas
aparecem borbulhando como uma fonte. Ela pergunta se eu gostaria de um copo de
champagne, vê o dela, quase vazio, e fala alto, "Alguém vai me dar um
copo de champagne?!". Depois, num sussurro, "Eles provavelmente estão
tentando mantê-lo longe de mim, achando que vou ficar bêbada."
A sessão começa e eu pergunto a uma assistente, Jill, de o mundo de Carey
é normamente tão intenso assim. "Este é o dia mais intenso em um longo
período de tempo", Jill diz. "M.C. é a mulher que mais trabalha no show
business. Ela está fazendo pose para a câmera, fazendo rap junto com a
caixa de som, usando uma taça, como microfone improvisado. "Odeio parecer
sórdida, mas implique comigo."
Durante o próximo intervalo, ela me chama. "Ouça, aquilo que eu estava
falando sobre meu pai. Eu não que pareça - eu apenas queria, de verdade,
construir um relacionamento com ele." Eu asseguro a ela que foi bom,
carinhoso até. Seus olhos suavisam. Que manipuladora! Eu penso. Não que ela
não seja sincera. Ela apenas se move rápido, muda as marchas, e vai embora.
Ela se vira e seu punhado de diamantes faisca.
"Eu preciso falar com Busta!" ela diz para ninguém em particular,
mas todos a ouvem, porque todos estão escutando. Elle – jul 2001