Mariah Brasil

Mirabella

Existe algo sobre Mariah
Mariah Carey está morta. Ela desabou, a uma jovem idade de vinte e nove, de repente, inesperadamente, bem na minha frente --- suas pálpebras tremeram, um suspiro escapou de seus lábios, seus joelhos se curvaram, e bateram, ela se deitou. Mesmo póstuma, ela ainda está magnífica: Seu corpo imóvel, vestido (apenas) em um robe azul de seda, está caído sobre um peludo carpete branco que parece ter sido feito de um sheepdog. Seu enorme cabelo se abre em forma de leque e delicadamente emoldura seu rosto.
Eu me levanto e aplaudo.
Ok, Mariah está apenas encenando estar morte, mas é uma performance improvisada quase convincente (com o som das minhas palmas, ela levanta bruscamente e ri do meu elogio). Embora considerando que é quase uma da manhã em Marrakech, e que Carey acordou está manhã às oito para uma seção de fotos que durou 7 horas, que ela ainda não jantou, e que também acabou de completar 2 semanas de uma turnê promocional européia para sua nova coleção de grandes sucessos, apropriadamente entitulado de #1's, é surpreendente que a causa do seu colapso não seja simplesmente a exaustão.
Mas, na verdade, Mariah estava reencenando uma cena do seu filme de estréia, The Bachelor, neste outono, no qual ela faz uma cantora de ópera temperamental que é sem sucesso cortejada por Chris O'Donnell.
Superficialmente, esta carreira poderia parecer inspirada no esforço de Whitney Houston atuando em O Guarda-Costas, no qual ela fez, basicamente, ela mesma. Mariah, que em pessoa, e até mesmo com um pouco de sono, aparece como sendo de longe mais inteligente, expressiva, e divertida, que sua reputação leva alguém a acreditar, veja neste papel uma oportunidade para:
a) parodiar sua imagem de diva;
b) ganhar um pouco de experiência nos sets antes de começar a produção deste verão em All That Glitters, seu veículo de estrela sobre uma cantora perseverante no início dos anos 80 na cidade de New York; e
c) trabalhar muito próxima de O'Donnell, por quem ela teve uma paixão quando era uma cantora perseverante da cidade de New York no início dos anos 80.
"É mais que o topo", Mariah diz do papel da insolente soprano que ela retrata em The Bachelor. "Estou cantando La Traviata, que é uma ópera extremamente dramática – e minha personagem morre no final da cena. O diretor disse, "Ok, você precisa de uma dublê para isto [a queda] certo?" E eu disse, "Não, eu posso fazer isso", sem imaginar que teria que fazer mais que 30 takes. Meus quadris, meus joelhos estavam me matando. Um médico teve que me trazer gelo, e fiquei pensando, "Nunca mais". Não que Mariah esteja se queixando; ela não é de se queixar. Na verdade, ela é mais que humilde --- repetidamente dizendo que se desculpa por estar tão cansada, desculpa por não ter mais tempo para falar --- o que prova ser amavelmente desapontadora uma vez que eu sempre a imaginei como o tipo que, sem provocação, atira vaias e pequenos objetos. Ela está agradecida por ter tido uma cena na carreira do cinema, uma vez que ela tem estudado atuação com a professora Sheila Gray, nos últimos 2 anos. "O pequeno problema com papéis menores é aquele monte de diretores, bem, eles têm medo de que pareça que estão cobrindo a visão de como me conhecem ---"
"Ma-ri-ah!" eu digo. Pela qual quero dizer que até os que não são seus fãs a conhecem como a cantora-compositora-produtora-superestrela internacional com um alcance de sete oitavos e a artista feminina de maior vendagem na história.
"Sim", ela diz, calmamente. Ela deita seus 1,75m em um antigo sofá branco, apoia seus pés descalços em um travesseiro, mexe seus dedos dos pés com unhas pintadas de prateado, e olha fixamente para o teto. Nós falávamos de dúzias de pomposos quartos na vila marroquina que, disseram-me que pertencem a um príncipe austríaco, que aparentemente aumenta sua renda alugando-os para super-estrelas passarem suas férias.
Enquanto o assunto acaba, a atual tendência não é Mariah, mas sem dúvida o seu obviamente enamorado "amigo", a sensação latina, o cantor Luis Miguel, que está sentado sob um lustre de cristal enorme na sala de jantar tentando dar uma festa com jantar generosa, apesar do fato que sua convidada de honra está submetida a uma entrevista. "O problema é que as estrelas que querem fazer filmes tem que transcender sua imagem", ela diz. "E meu problema é que até 2 anos atrás, não permitiam que eu transcendesse minha imagem, até mesmo como cantora. Mas eu não quero me prolongar neste assunto sobre meu antigo relacionamento--- todo mundo já está cansado disso."
Um esclarecimento, caso você não tenha percebido o motivo do cansaço: O homem sobre o qual Mariah não quer se prolongar é Tommy Mottola. Além de ser seu marido por 5 anos (eles se divorciaram em 1998), Mottola, 48, ainda é seu chefe, enquanto ele é o presidente e chefe executivo da Sony Music Entertainment, e Carey, com quem ele tem um contrato de 8 álbuns desde 1990, ainda deve mais 2 à subsidiaria da Sony, a Columbia Records. Aos 19 anos, Mariah era muito pobre e ingênua para pensar duas vezes em assinar um contrato que exigia que ela fizesse 8 álbuns, por causa desse fato, ela os lançou numa taxa impressionante de aproximadamente um por ano, sugerindo que ela ou prefere viver de estúdios de gravação para apartamentos ou então ela simplesmente esta muito ansiosa em preencher sua obrigação contratual. Mariah diz que este é o caso, embora ela, eventualmente, concorde em discutir seu casamento--- que relatamente rivalizava uma prisão nos Rikers.
A última vez que ela falou sobre isso com alguma profundidade foi no 20/20 com Barbara Walters.
Francamente seguindo sua entrevista, o New York Post lançou uma história sustentado que a indústria da música estava chocada pela franqueza alegada de Mariah; na verdade, ela foi irritantemente diplomática. "Jornalistas me disseram que tinha uma pessoa lá que está tentando me difamar", Mariah explica. "A questão é que eu mantenho minha boca fechada sobre muitas outras coisas que eu poderia falar, e esta seria uma história completamente diferente".
A partir deste ponto, quando discutimos a correlação entre seu casamento e sua carreira, parece que Mariah está inteligentemente substituindo frases como "os poderes que seria" por Tommy Mottola. "Isto é o que me chateia sobre toda a coisa de percepção pública: Leva 5 anos para criar uma imagem e, provavelmente 5 anos para mudar mesmo que levemente. Primeiro de tudo, foi instituído pelos poderes que seria: a jovem garota de cabelos cacheados no microfone, cantando uma música romântica. Minha imagem era suposta a ser uma não-imagem. Esta é a razão pela qual eu estava no campo vestindo uma camisa de flanela com short e tênis--- garotas poderiam se relacionar com aquilo. E sim, esta era parte da minha vida, mas quando eu tinha 12 anos, estava em mim querer ser alguém que pudesse mudar sua aparência e ser atraente."
"E sexy", eu adiciono, sinalizando para sua idéia de um robe.
"Sim, sexy", ela concorda, não obsceno, mas sexy. "Mas era desencorajador. Porque as pessoas de posição na corporação sentiam que isto era muito mais uma apelação a ser menos ameaçadora visualmente se sua voz é irresistível em termos de força. É como qualquer corporação--- se uma fórmula de um refrigerante funciona, não vamos mudá-la, você sabe o que quero dizer?"
É uma perfeita metáfora para descrever seu trabalho: pop. Além da sua natural voz maravilhosa, as faixas mais dance mais animadas e as baladas sentimentais de Mariah foram repudiadas por alguns críticos como o equivalente musical da Diet Pepsi--- muito mal adoçada, com um péssimo gosto depois. Até seu primeiro lançamento pós Tommy Mottola, Butterfly em 1997: Mariah, que sempre compôs e produziu sua música--- embora ela geralmente pense como uma cantora a la Celine Dion, ao invés de uma artista, a la Lauryn Hill--- diz que este foi o primeiro CD sobre o qual ela teve completo controle criativo. Em conseqüência, isto foi uma saída radical da sua açucarada vida artística, na medida que mostra uma denunciada sensibilidade hip-hop, e uma ponta moderna de R&B por toda a parte.
"Até Butterfly", Mariah diz, "eu não podia fazer nada diferente, então eu não sei o que minha imagem é agora." Eu digo a Mariah que, para uma grande categoria, a percepção dela é a de uma diva de roupas curtas, que vive em sua limousine, em festas noite à dentro com todos de Sean "Puffy" Combs a Donald Trump, e diz coisas como "Quando eu assisto TV e vejo aquelas pobres crianças famintas em todo o mundo, eu não posso ajudar, mas chorar. Quero dizer que eu adoraria ser magra como elas, mas não com todas aquelas moscas e morte e coisas." Esta citação fictícia foi divulgada por publicações respeitadas em todo o mundo, não menos que online, tentaria apoiar a teoria de Mariah sobre uma campanha de difamação.
"Aquela ridícula confusão", ela diz. "Alguma alma patética está tentando fazer eu parecer como uma idiota. É o preço da fama na era da internet. O que eu vou fazer? Ficar estressada? Seja o que for."
Quando você é maior que uma vida de celebridade, as pessoas não podem resistir em atirar neste alvo tão grande. Por exemplo, ridicularizar Mariah parece ser a única coisa que as ex colegas de festa Madonna e Sandra Bernhard ainda tem em comum. A primeira disse do recente VH1 Divas Live especial no qual Mariah cantou...- que ela teve problemas para ver a performance através do penteado de Mariah. Carey, para seu crédito admite, "O cabelo estava ameaçando tomar todo o palco. Mas quando eu vejo esses comentários sendo feitos, é desapontador. Eu a respeito. Ninguém irá tirar sua posição como um ícone, mas quando ela faz estes comentários depreciativos, eu acho que isto apenas a diminui daquilo."
Sandra Bernhard, que dedicou um monólogo inteiro da sua sessão da Broadway Eu ainda estou aqui... maldito seja! a etnia de Mariah, não vai embora tão fácil. Para Carey, sua herança é um assunto delicado exatamente como o seu casamento. "Muito da minha vida eu estive na procura de um caminho para chegar em um acordo com minha herança étnica, e isto vai além de apenas minha mãe ser irlandesa e meu pai ser metade negro e metade venezuelano. Eu era mais ou menos uma pessoa deslocada enquanto crescia."
Nascida em Long Island, a mais nova de 3 filhos de uma mãe cantora de ópera e um pai engenheiro da aeronáutica, eles se divorciaram quando ela tinha 3 anos – Mariah teve uma infância definida pela alienação, instabilidade financeiro e transitória (ela se mudou 13 vezes).
Estes fatores, sem dúvida, continuam a abastecer sua natureza compulsiva por trabalho e energia insone: enquanto se ela tem medo de que, não importa o quão duro ela trabalhe, ela nunca poderá correr mais rápido que o passado.
"Então eu não sou exatamente como minha mãe, eu não sou exatamente como meu pai." Mariah continua. "E [recentemente] eu coloquei muita importância nisso que tomei o controle em quase tudo na minha vida. Entrei em um relacionamento [com o jogador do NY Yankees, Derek Jeter, que vem de uma herança racial similar] porque estava fixada nisso. Eu imaginava que o que eu precisava fazer era me voltar para a minha própria herança, e isso significava apenas aprender sobre meus pais. Eu acho que sempre bloqueei o fato de que isto era uma coisa importante para mim como um mecanismo de defesa. Esta é a maneira que eu lidei com muitos problemas da minha vida que pareciam perigosos."
Não mais: "Sandra Bernhard" Mariah começa, "usou palavras que cada afro-americano que conheço e definitivamente eu, pessoalmente, acho inapropriadas. Se minha pele tivesse um tom duas vezes mais escuro, ela nunca faria isso. Eu acho que ela me percebe como branca, que é uma percepção comum. E sim, sou uma mistura anormal, sou tri-racial, mas ela subentende que eu sou uma pessoa branca tentando ser negra. E isto é ofensivo para mim, porque fui uma vítima do racismo dos dois lados. Então Sandra Bernhard me chamou de uma "cadela branca falsificada" e dizendo que eu estava "atuando ser uma crioula" é aceitável porque ela me considera como, "Quem irá assaltá-la?"
Ainda outra rival formidável no horizonte, e na corrida de Mariah na Sony é Jennifer Lopez; pessoas que tem acesso a informações sigilosas na indústria da música estão se referindo ao seu álbum de estréia como "estilo-mariah-latino" Mariah está atenta sobre o lançamento do álbum de Lopez pela Sony: o que não está claro é se ela sabe que Tommy Mottola esteja supostamente envolvido romanticamente com seu mais último projeto de estimação. "Ela é uma dançarina, não é? Mariah pergunta. Eu digo que Lopez é a atriz que estrelou o filme Selena. "Ela dublou os vocais de Selena, você sabe", Mariah diz. "Eu não acho que como uma cantora, nós não estamos numa mesma categoria como artistas."
Quando sua empresária, Louise McNally entra, deixando a porta aberta e inundando o quarto com o ritmo da música marroquina, Mariah senta e coloca rapidamente sua sandália preta Prada. O tempo todo ela estava reclinada no sofá enquanto eu estava sentado numa cadeira ao seu lado fazendo notas, que fez a nossa conversa parecer mais uma sessão de terapia que uma entrevista. "Você já foi a um psiquiatra?" eu pergunto. "Mmmhmm", ela diz, "mas era mais uma 'relação de controle' e como sobreviver nela. Isto irá soar um tanto bizarro, mas trabalhar com Sheila me ajudou muito em termos de sentir-se à vontade estando sozinha. Sim, é uma expectativa glamourosa estar em filmes, mas para mim, atuar é sobre liberar sentimentos que eu mantenho trancados aqui dentro por muito tempo."
Em outras palavras, para Mariah, atuar tem sido terapêutico. E ela admite que seus medos--- inexperiência sexual e intimidação por exemplo--- são substanciais o suficiente para justificar alguma forma de tratamento. "Eu tenho um temperamento auto-protetor", ela diz, "que tem sido bom para mim por um lado mas também é muito inibidor. Eu estava nisto [uma atitude mental fixa que determina as respostas e interpretações das situações] onde eu ficava, 'se vou estar com alguém, então irei ficar com ele para sempre.' E isto não é realidade, Eu não vou ficar com uma pessoa na minha vida, e é estranho porque [seguindo o divórcio] eu fui ligada a todos esses homens. E estava me sentindo totalmente insegura em embarcar em qualquer outro novo relacionamento, porque sentia que talvez eu não fosse boa o bastante. Eu sentia que não tinha experiência o suficiente. E ainda tenho este tipo de coisa. Eu me aproximo das pessoas, sou amiga das pessoas, ficarei com as pessoas, mas sou muito cautelosa em termos de quem eu deixo entrar no meu... espaço pessoal." Mariah toma um longo e lento gole de vinho tinto. "Tudo se origina se coisas de raízes profundas que eu vi enquanto crescia [incluindo declaradamente, a gravidez na adolescência e o casamento fracassado de sua irmã mais velha, como também o subsequente envolvimento dela com drogas e prostituição], e eu não falo sobre isso porque não é meu lugar. Então é definitivamente esta coisa auto-protetora que eu tenho. Eu não estou fora, como, um animal, selvagem, vivendo em função disso"--- ela bate palmas---"com um milhão de caras, porque esta não sou eu. E não é seguro. Acho que sou um pouco contraditória em termos, porque eu sinto que está certo em ser sexy e livre, mas há uma diferença entre sexy e... promiscua. Acho que desejo um pouco que eu pudesse ser mais desta forma, e estou tentando aprender como estar mais confortável com essas coisas, mas parece um situação estranha para mim. Ano passado, quando eu passei por período se transição inicial de um relacionamento de compromisso para "aqui estou eu, ausente do mundo", eu nunca tive um encontro. Agora eu vou a encontros, mas na realidade não são muitos. Eu não sei que diabo é um encontro."
E com isso, Mariah se levanta, pensando que isto é sobre a hora que ela recupera o que seria considerado, pelos padrões de qualquer um, o encontro de sua vida: A festa em que Luis Miguel juntou coisas do carnaval marroquino, incluindo camelos de passeio, encantadores de cobra, dançarinas da dança do ventre, engolidores de fogo, e uma família de acrobatas. "Eu nunca pensei que fosse estar na África! Nunca pensei que montaria em um camelo!" Mariah fala entusiasmada, mas sua excitação instantaneamente caí na insegurança sobre--- o que mais seria?--- sua imagem. "Por favor não deixe que as pessoas pensem que eu monto em camelos todos os dias." Andando para dentro da varanda e observando o completo surrealismo de tudo isso--- animais exóticos, crianças acrobatas, todos vestidos com roupas estranhas--- Mariah matreiramente supõe, "Isto é tudo muito Michael Jackson."

*James Patrick Herman (jornalista) é o editor da sessão de música da ELLE.


Mirabella - maio 99
traduzido por Vany


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