Como toda heroína trágica, Mariah Carey trocou liberdade por fama, criatividade por sucesso comercial. Agora, ela está escrevendo sua própria história e o fim foi mudado de amargo para doce.
Um piso acima do engarrafamento da hora do rush na West Side Highway em Manhattan, Mariah Carey está distribuindo glamour. Apesar do fato dela ter acordado na Flórida às 5:30 desta manhã para pegar um avião, a cantora tem mostrado alegremente seu alto sex appeal por mais de seis horas. Carey desatentamente cantarola as palavras de Notorious B.I.G. em "Going Back to Cali" enquanto sorri sedutoramente e estica uma perna dourada em uma saia de franjas Native American.
Esta não é a Mariah Carey que costumávamos conhecer, aquela de suplicantes baladas soul cheias de ginásticas vocais. Nos dias atuais, Carey, de 28 anos, faz colaborações com tipos como Sean "Puffy" Combs, Q-Tip, Mase e Bone-Thugs-N-Harmony; e ela aparecerá na MTV, apresentando suas preferências pessoais como Missy Elliot e Busta Rhymes. "No início da minha carreira eu era influenciada por hip-hop e R&B, mas isso não era encorajador", diz Carey, adicionando enigmaticamente, "as pessoas não entendiam".
Esteticamente também houve uma mudança extraordinária na mulher que, ela mesma admite, costumava estar vestida em "saco de batatas". No clipe do ano passado, "Honey", produção de Combs, Carey foi a primeira cantora a usar aqueles saltos de metal estileto Gucci; em seu clipe para "The Roof", ela volta ao estilo dos anos 80 em um jeans Sergio Valenti e um penteado de Farrah (de As Panteras); recentemente, ela contratou o sábio da Halston, Randolph Duke, como estilista para sua turnê. Ao contrário da curva que faz a carreira de uma estrela pop normal, Mariah Carey está, na verdade, mais alto do que estava quando começou.
A alguns quarteirões de distância, na boate Lot 6I, uma garrafa gelada de champagne Cristal aguarda a chegada da senhorita Carey. O grupo de endinheirados saindo do trabalho se mistura sob a enorme pintura de Damien Hirst, enquanto a lua de clima Safari brilha ao fundo. A diva e seus acompanhantes entram rapidamente no espaçoso restaurante para uma parte reservada, e ela coloca sua bolsa sobre uma banqueta coberta com pele de zebra. Carey se espreguiça, enche seu copo e fala no seu telefone celular. Carey recebe muitas ligações, muitas de amigos parabenizando-a pela entrevista com Howard Stern na noite passada. "Me ligue às duas, ok?", Carey diz a um dos que ligaram.
Sorridente, ela faz planos para mais tarde esta noite, com algumas amigas: ela vai buscar comida no seu restaurante favorito (um chinês) e então pegar as moças em um salão de cabeleireiros no Queens, antes de ir para o Brooklyn em elas, provavelmente recitando seu repertório preferido dos Jerky Boys. Uma volta pelos bairros menos chiques de New York não estaria na agenda noturna de uma princesa internacional, mas o modelo 1998 Mariah Carey está fora para se divertir.
Uma procura por diversão está presente nos clipes de Carey atualmente, com a sutil mudança que a câmera – ao contrário da antiga fórmula – mostra a estrela como ela é. Novamente, Carey se queixa porque ela "nunca podia trabalhar com os diretores que eu queria antes". Nessa queixa, ninguém poderia ajudar, mas sim perguntar: Qual era o problema?
"A vida pode ser divertida daquela forma", Carey responde com um tom de irônico em sua voz rouca.
Uma conclusão: Que a influência inibidora na vida de Carey – a principal "pessoa" entre as "pessoas" que ela está indicando – deve ter sido seu antigo marido Tommy Mottla. Como marido de Carey, e o presidente da sua gravadora Sony, o alegadamente bruto e controlador Mottola, 49anos, é amplamente suposto como sendo a prisão artística de que Carey recentemente se libertou. Isto é apenas suposto, porque Carey habitualmente evita questões sobre o que, depois de tudo, é um longo – e extremamente lucrativo – relacionamento. Embora seu álbum pós-separação, Butterfly, celebre a emancipação emocional e a livre expressão própria, Mariah Carey detesta fazer declarações que menosprezem o homem que a transformou de uma adolescente suburbana a uma sofisticada cantora com mais de 80 milhões de álbuns vendidos no mundo inteiro.
No último fevereiro, Carey, que tem seu próprio filme em desenvolvimento, embarcou em uma nova série de lições para atuar. Mas mesmo antes que ela pudesse fazer algumas cenas básicas, havia um grande problema a superar.
"Quando eu estive com minha professora pela primeira vez, eu estava tão tensa, tão nervosa – meus ombros estavam para cima assim", diz Carey, curvando-se para cima. "Eu era o estresse em pessoa! Sofro de dermotografismo, o que significa que minha pele é sensível a todo tipo de coisa, como a luz do sol, o sal e o estresse – você pode escrever seu nome em vermelho no meu braço.
"Minha professora usa certas técnicas de relaxamento. Ela me disse: 'Crie um lugar na sua mente onde você se sinta segura, onde ninguém irá te enganar, onde você se sinta completamente sob controle e tranqüila'. – e eu não tinha um lugar. Ela disse que eu poderia até mesmo usar algo da minha infância, então eu comecei a pensar, e todos os lugares da minha infância tinham tão poucas lembranças relacionadas a eles que me deixou triste. E eu não tinha nada no presente que me deixasse confortável ou sob controle. Era assim que minha vida estava no momento."
Enquanto ela examina o menu da Lot 6I, Carey usa um lenço úmido para acabar com qualquer germe que pudesse ameaçar sua preciosa voz. Achando que a maior parte do cardápio agravaria a condição de sua pele, ela pede arroz branco. Quando o pequeno prato chega, ela raramente toca nele.
A dieta específica de Carey, junto a insônia e a fobia germes, somada a sua reputação como uma mandona imperdoável. Uma megera de saltos altos, se fosse alguém da seção substancial de estilistas e assistentes de produção de New York que clamam em ser empregados pela senhorita Borboleta. Carey, que nunca é menos que amável no contexto da entrevista, explica o que poderia estar na origem dessa percepção. "Eu sou muito enérgica porque eu me sentia muito instável na minha infância", ela diz. "E sou enérgica porque sinto que se eu não guiar as coisas eu mesma, elas não serão feitas da forma que eu quero que sejam. Porque eu componho e produzo, ninguém pode responder por mim. Quero dizer, meu 'assistente executivo' não pode dizer a eles quão alto eu quero os vocais em uma mixagem."
"E as pessoas podem entender de forma errada, mas eu ainda não me sinto financeiramente segura", diz Carey, que está ficando em um apartamento mobiliado enquanto ela e Mottola vendem sua mansão fora de NY de 10 milhões de dólares (com um estúdio de gravação).
"As pessoas lêem '80 milhões de discos', então pensam 80 milhões de dólares, mas você tem que pagar seus advogados, seus empresários, todas essas pessoas que de repente tem que trabalhar para você. Acredite em mim, eu imagino o quanto rica eu sou, mas por dentro eu me sinto como se o tapete pudesse ser puxado debaixo dos meus pés a qualquer momento".
"How-ward! Você fica assim e eu entro correndo!"
Mariah Carey está se entregando ao seu desejo "quase masoquista" de entrar na toca do leão que existe no show, uma combinação de rádio/TV, de Howard Stern. "Eles nunca me deixariam fazer essas coisas antes", ela diz ao anfitrião com uma risadinha. Mais uma vez, nenhum nome é atribuído ao ubíquo "eles".
Stern é famoso pelo seu estilo de entrevista agressivo e persistente que rapidamente divide seus convidados entre aqueles que podem agüentar e aqueles que caem em pedaços. Mariah Carey pode agüentar. Ela parece invulnerável esta noite em seu mini-vestido e seus saltos altos, mas Carey lida com este "Jerky Boy" lindamente, acabando com suas lascivas perguntas sobre seus supostos romances com Sean "Puffy" Combs, Q-Tip e mais recentemente, o Yankee, Derek Jeter. "How-ward! O que sua mulher diria?" Carey grita, sua voz regressa ao tom rude de uma adolescente mal-educada de Long Island.
Howard Stern não assusta Mariah Carey porque ela conhece o tipo: ambos destes fenômenos da cultura de massa cresceram em Long Island, a província que parece indistingüivel na cidade de New York como uma sombra sobre um pulmão. Manhattan e Long Island tem um relacionamento similar ao de Londres e Essex: quem mora em Long Island acha seus vizinhos falsos e metidos; para os conscientes de Manhattan, Long Island é mais que uma província de pequenos desajustados. Além de produzir um número desproporcional de celebridades sem muita cultura como Billy Joel, Debbie Gibson, e o clã dos Baldwin, Long Island é também uma fonte rica de estórias de crime para tablóides sensacionalistas, como o serial killer Joel Rifkis, ou Amy Fisher, o adolescente que, depois de cair sob o encanto de um homem ítalo-americano controlador e violento, tentou matar sua mulher.
A infância de Mariah Carey em Long Island não foi muito distante do padrão suburbano. Seus pais se divorciaram quando ela tinha três anos, e Carey foi criada por sua mãe, uma cantora de ópera, em várias vizinhanças de baixa renda. Uma vez que a mãe de Carey era irlandesa e americana, e seu pai, engenheiro, era venezuelano/afro-americano, a família chamou a atenção do tipo de pessoa que hoje forma parte da audiência de Howard Stern: entre outras coisas, os Careys tiveram seu carro danificado por uma bomba e seus cachorros envenenados. "Eu passei por muitas coisas, mas eu sinto como se conseguisse uma caixa de sabão para guardá-las", diz Carey, pegando um pedaço de pão. "Não importa pelo que passei, isso me fez uma pessoa mais forte e melhor."
"Eu acho que essa coisa de suburbana fez eu me sentir como uma rejeitada, uma estrangeira; porque todo mundo em Long Island deve ser perfeitamente normal, exatamente como todo mundo. E ser multirracial coloca você distante de quase todo mundo. Eu não apenas uma coisa, racialmente ou em influências; eu não sou uma pessoa unidimensional."
Long Island moldou outra das dualidades de Carey, a tensão urbana/suburbana que estes dias instruem sua música. Apesar das áreas verdes e grandes avenidas, Long Island se move com o batido pesado das ruas das estações de rádio de New York: Carey cresceu ao som de rádios hip-hop e R&B como a WBLS, a Kiss-FM e a WKTU. Uma "viciada em rádio" confessa, ela devia viver ao som dos sucessos de Evelyn "Champagne" King e Rich James; e, ela diz, "na quinta série, eu sabia cada palavra do 'Rapper's Delight'. Eric B, Rakin, Doug E Fresh e Slick Rick – todas essas pessoas faziam parte dos meus anos de colégio".
Antes dos dez anos, a pré "B-girl" saía junto com sua mãe e seus amigos músicos de jazz; aos 13 ela estava compondo e cantando suas próprias músicas. Carey desistiu da universidade e se mudou para Manhattan aos 17, pegando vários empregos e trabalhando esporadicamente como cantora. Seu irmão trabalhava em um club, era treinador e trabalhador autônomo, e foi quem a apresentou pela cidade e a ajudou a conseguir pequenas apresentações em clubs e restaurantes. "Eu era sempre a irmãzinha de Morgan", lembra-se Carey, que dividiu seu primeiro apartamento com quatro meninas mais velhas. "Elas tinha, uns 25, 26 anos – eu ia pra casa às cinco da manhã e elas ainda estavam em festas. Elas me perguntavam, 'Por que você trabalha tanto?' e eu pensava, 'Porque quando estiver na sua idade quero já estar estabilizada e bem sucedida."
Uma noite em 1988, Cary foi a uma festa da indústria da música para entregar uma fita demo a Tommy Mottola da Sony. No conto de fadas real, ele assinou contrato com a adolescente e investiu milhões em sua carreira; alguns anos depois, ele deixaria sua esposa por ela. Em junho de 1993, Tommy e Mariah estavam casados em uma mansão, numa cerimônia inspirada nas núpcias de Charles e Diana.
Carey conheceu o sucesso mundial com seu single de estréia "Vision of Love" em 1990, com um grande impacto, e um toque de gospel em sua voz. E ela continuou a prosperar com seu bem comercializado material, ostentado por suas próprias letras, repetindo a fórmula pop dos anos 50 ("you" inevitavelmente rima com "true"; "follow" sempre encontra um "tomorrow"). Enquanto Carey enchia as paredes de sua casa com discos de platina, músicas como "Hero" e "Without You" pareciam seguir o velho ditado hollywoodiano, "Começar com um clímax e desenvolver a partir daí". Contudo, entre todas essas mudanças a partir da grande estréia e melodias muito familiares (Earth Wind e Fire de Maurice White foram efetivamente creditados como parte do hit "Emotions"; outro título foi deixado de fora) havia na semente da voz de Carey algo contra a volta ao pop clássico romântico de Ronnie Spector e Diana Ross.
Ocasionalmente, Mariah Carey até mesmo mostra uma linha pop mais moderna, como no remix de "Fantasy" de Puffy Combs, que juntou a cantora e sua amostra de "Genius of Love" de Tom Tom Club (um clássico da WKTU) com Ol' Dirty Bastard do Wu-Tang Clan. A escolha de Carey por ODB não foi bem recebida pelos executivos da Sony, que provavelmente prefeririam um dueto com Celine Dion. "As pessoas não podiam entender por que eu queria alguém fazendo rap em uma das minhas gravações, elas não viam por que eu sentia necessidade de ter isso. Quando você não cresce com alguma coisa, você não entende", diz Carey.
"Todos costumavam estar muito concentrados na minha imagem pública, mas gradualmente isso se tornou menos que um problema – bem devagar mesmo. A coisa engraçada é, de muitas maneiras eu sou uma garotinha boazinha: e eu tenho um número regular de conflitos em mim."
"De volta ao colégio, eu era uma garota desordeira que costumava fumar cigarros no banheiro e empurrar meninas para dentro dos armários. Mas eu era uma falsa-má, porque estava imitando uma amiga, e ela fez muitas outras coisas que eu não quis fazer. As pessoas pensavam que eu era aquela garota mal-educada e desordeira, mas eu não era. E mais recentemente, as pessoas pensavam que eu era boazinha, mas eu também não sou isso."
No álbum Butterfly, a imagem de Carey é – obrigado à imprensa que amavelmente aceitou a idéia de sair daqueles "casulos" e partir para "vôos solos" – de uma Lady Di do R&B, uma garota-glamour cheia de coragem e determinação que abandonou um opressivo e milionário casamento. Se as letras de Carey deixaram alguma dúvida, o já mencionado clipe de "Honey" evidentemente deixa algumas dicas: uma introdução dramática densamente executada mostra Nossa Heroína escapando das garras de um vilão ítalo-americano insensível e controlador e seu bando, para encontrar a liberdade em um maiô e saltos altos Gucci. (Esta cena não foi, Carey insiste repetidamente, uma comparação com Mottola.)
Apesar desta base de celebração, Butterfly é na realidade apenas levemente mais aventureiro que o primeiro trabalho de Carey (desta vez "dólares" está igualado a "talento"). Mas o álbum mostra a afinidade natural de Carey com os últimos modos de cultura com sua sedutora adaptação de estilo de rima dos Bone Thugs ("Breakdown"). Carey tem um inquestionável ouvido para um sucesso; e desde que sua própria voz é o perfeito viciandor pop, ela precisa apenas da textura, não do texto.
É um artigo de religião entre as pessoas do entretenimento, que ninguém nunca admite ser afetado pela imprensa. O que faz todos mais surpresos com a resposta de Mariah Carey à menção do extraordinário caráter violento de Tommy Mottola feito pela Vanity Fair. O grande e detalhado artigo, que mostrou Mottola como com colecionador de armas, quase psicopata com uma fixação imprópria com a máfia e um arquivo no FBI, publicado em dezembro de 1996; o casal se separou oficialmente seis meses depois.
"Eu não me diverti com o artigo da Vanity Fair", diz Carey com uma repentina sobriedade. "Eu sou uma pessoa que não guarda mágoas, se alguém fez algo para mim e os vejo machucados, não me divirto com isso. Não gosto quando acontece comigo, quando as pessoas atacam minhas partes vulneráveis. Mas era hora de mudar minha vida."
A companhia de Carey começa a se reunir para seu passeio pela cidade, repleta de Jerky Boys, comida para viagem, e rumores do showbiz. Seria seguro dizer que Mariah Carey "a estressada" acabou?
"Sim, eu não me sinto mais da mesma forma", ela afirma. "Agora eu me sinto como se estivesse mais próxima da pessoa que eu era antes de tudo isso acontecer. Agora estou tentando me divertir – eu não quero ser velha antes do tempo. Eu não quero estar no palco todas as noites em um vestido preto extravagante cantando 'Hero'. E mais uma vez, eu ainda tenho as baladas – eu não sou burra."
Arena - jun 98