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Entre os arco-íris e fantasias, Mariah Carey aprendeu que tudo que brilhou pode ter sido multiplatina, mas certamente nem sempre foi ouro. Nas vésperas do álbum mais importante de sua carreira, a artista de maior vendagem de todos os tempos se abre com Aliya S. King da revista America
É 1978 e Mariah Carey começou a quarta série na escola fundamental Thomas J. Lahey em Greenlawn, subúrbio em Long Island. Mariah foi transferida no meio do ano porque acabou de se mudar, pela enésima vez. Além de receber os típicos olhares de novata, ela recebe alguns olhares extra. Primeiro de tudo, ela não é tão escura como uma criança negra. Mas definitivamente também não é branca. Depois, o cabelo dela – castanho-claro, espesso, encaracolado e enorme. Não é um Afro, como o, de uma criança negra. Mas também não é brilhante e liso. Há uma lista enorme de coisas com as quais eles poderiam pegar no pé de Mariah no seu primeiro dia de aula. Os colegas de classe dela decidiram criticar o vestido.
Rachel Wifall, colega de classe de Mariah, lembra-se muito bem daquele dia. Hoje, Wifall é professora de Inglês na Jersey City State University. Ela não vê Mariah há quase vinte anos, mas a lembrança do primeiro dia de aula de Mariah na escola Lahey é clara em sua mente.
“A quarta série era a época em que você estava brigando com seus pais para vestir o que você quer vestir. Então até mesmo as meninas, nós todas usávamos calças Levis e de cotelê, e ela aparece usando um vestido bem feminino, todo babado. Implicaram com ela por isso.”
Poderia ter sido pior. Eles poderiam ter focado no fato de que Mariah e sua mãe tinham acabado de se mudar para a casa de Ernie e Mort, um casal gay que deu a Mariah o lar mais estável que ela teve desde o divórcio de seus pais. Eles poderiam ter implicado com Alfred Roy Carey, o homem negro que andava pelas ruas de Long Island com sua filha nos fins-de-semana ou com Patrícia Hickey Carey, a espirituosa ex-esposa dele, que podia ser vista com Mariah durante a semana. E aí tinham as casas onde ela morava, geralmente a casa dos empregados que sua mãe alugava dos donos das “mansões” em algumas das áreas mais exclusivas de Suffolk County.
Mas se as crianças da quarta série dela realmente quisessem irritá-la, elas poderiam ter perguntado se ela possuía alguma coisa além de sua mochila nas costas. "Eu nunca pude olhar para algo e dizer, 'isso é meu'."
Mariah senta-se confortavelmente no sofá, com uma manta sobre seu colo, escondida em uma pequena sala iluminada à luz de velas na cobertura do arranha-céu que é o seu lar no centro de New York. Ela agarra a mesa de centro na frente dela para ilustrar o que diz. "Naquela casa, eu sentava na banheira de porcelana e pensava 'isso é de alguém... nada nesta casa pertence a mim'."
Mariah decidiu cedo, naquela época, que faria algumas mudanças na trajetória da sua vida. "Eu sabia que se quisesse qualquer coisa, eu teria que conseguir por mim mesma. E eu queria muito. Eu sabia que queria morar em Manhattan - em uma cobertura. Eu queria um banheiro que fosse só meu. Eu queria ser famosa - não famosa como Michael Jackson - mas eu queria ser famosa."
Vinte e cinco anos depois, as coisas mudaram para Mariah, pelo menos no papel. Mas uma profunda reflexão na vida, passado e presente, da musicista de maior vendagem de todos os tempos levanta muitas outras perguntas. Sim, ela possui coisas. Mas Mariah Carey possui as coisas da vida que o dinheiro não pode comprar?
i•den•ti•da•de s.f.
1. quem alguém é ou o que alguma coisa é, especialmente o nome pelo qual alguém ou alguma coisa é conhecido.
Ver também individualidade
Em um quarto quatro andares abaixo do pequeno esconderijo, Mariah mostra sua árvore genealógica. Há uma foto em uma moldura prateada de uma jovem Mariah loura com Nana Addie, sua avó paterna. Addie, uma mulher afro-americana de pele escura, nasceu e foi criada no sul, mudou-se para New York e fez uma pequena fortuna em propriedades. Ela não ficou feliz quando seu filho Roy casou-se com Patricia Hickey. Até mesmo depois do divórcio deles, ela ainda desaprovava.
"Você sabe que não é seu bebê", Nana Anddie disse para o seu filho, inclinando a cabeça na direção do quarto que sua neta de quatro anos estava bisbilhotando. Diferentemente dos seus irmão e irmã mais velhos, quando criança, Mariah tinha cabelo louro.
Com o passar dos anos, a desaprovação de Nana Addie abrandaram e ela ensinou a Mariah todas as coisas que as avós negras passam de geração em geração, desde como guardar sua peruca apropriadamente, até a importância de cobrir todos os seus móveis com capas de plástico. Mas essas conversas, e mais importante, esses sentimentos permaneceram com Mariah e ela começou sua batalha de uma vida inteira para aceitar sua identidade. "Eu realmente me sentia feia. Não me sentia uma garota bonita. Eu não me parecia com minhas amigas brancas e nem com minhas amigas negras."
A crise de identidade de Mariah continuou durante sua adolescência. No colégio Harborfield, Rachel Wifall lembra-se de uma Mariah muito diferente. Durante a escola fundamental, a estranha de vestido babado tornou-se uma boca-suja, que fumava cigarros, fazia piadas e mais parecia ser alguém que caçoava dos outros do que vice-versa. "Ela saía com o pessoal mais velho e mais grosseiro", diz Wifall. "Havia definitivamente alguma coisa acontecendo emocionalmente. Meu sentimento é que ela estava com problemas e estava os expressando de maneira inconsciente."
De fato, na época em que entrou no ensino médio, Mariah e sua mãe tinham se mudado umas treze vezes. Durante o último ano, ela estava morando no que Mariah chama de "um barraco", no terreno de uma pequena propriedade em Huntington Bay. Ela era o trágico provérbio mulato: nem branca o suficiente para aproveitar o privilégio, nem negra o suficiente para protestar a indignidade.
Hoje, a ambigüidade racial é moda na indústria do entretenimento. Pessoas "brancas" têm sobre-nomes latinos (Cameron Diaz), pessoas "latinas" têm pouca conexão com sua herança além dos seus sobre-nomes (Christina Aguilera). Vin Diesel tem firmemente se recusado a falar sobre sua etnia. Mas em 1990, quando seu álbum de estréia foi lançado, a etnia de Mariah foi imediatamente questionada. E ela foi duramente repreendida por ousar tornar as coisas complicadas.
Muito antes de Tiger Woods ofender a América negra por recusar-se a ser rotulado apenas como um negro, Mariah Carey foi a Cablinasian (palavra que Tiger Woods usa para descrever sua ascendência multirracial, que inclui Caucasiano, negro (black), Índio Americano e Asiático (Asian)) original, insistindo que as somas de suas partes são reconhecidamente iguais. (Todos juntos agora, a mãe dela: irlandesa, o pai dela: negro e venezuelano.)
Para a América branca, era simples. Ela Não era Branca. Ela poderia ser metade-Siciliana e um quarto-Marciana, que ela ainda seria jogada no mesmo saco: Não é Branca. As pessoas negras, em sua maior parte, suspiraram e reviraram os olhos. O pai dela era negro e venezuelano? Ele não poderia ser apenas negro? A decisão - e a habilidade - de Mariah em reconhecer mais do que apenas duas raças tornaram-se uma questão de distração.
"Foi um problema por causa da minha aparência", diz Mariah, correndo uma mão sobre seu braço nu. A pele dela é mais clara que a média italiana. "Nós somos uma sociedade visual. Logo que olhamos para alguém, nós o colocamos em uma caixa." (De fato, a pele cor caramelo de figuras birraciais famosas como Halle Berry, o político Barack Obarna, Bob Marley, Jimi Hendrix e Lenny Kravitz os tornaram negros, ponto.)

Em sua crítica sobre o álbum de estréia dela, o famoso crítico de música negra Nelson George disse que Mariah era uma garota branca que cantava como uma garota negra. Quando Mariah leu isso, ficou furiosa. Mas ela foi educadamente encorajada por sua gravadora a deixar a crítica de lado. O que teria de tão ruim se as pessoas pensassem que ela era, digamos, italiana?
"Não é que eles falaram demais sobre isso", Mariah diz. Ela pára e revira os olhos. "Quero dizer, eles falaram." Ela recupera o fôlego rapidamente. "Mas eu não consegui controlar a minha resposta a ele porque eu realmente me senti ofendida. Eu compreendo que as pessoas têm que falar de mim. Mas eu não vou aceitar tudo o que dizem."
Em um almoço formal com o jornalista da música negra, uma Carey de 20 anos confrontou George. "Eu disse e ele que não gostei do que ele escreveu. E isso foi logo no início da minha carreira. Nunca houve um tempo em que eu não tenha explicado exatamente o que eu sou. Mas para algumas pessoas, eu ainda era somente uma garota branca. Para outras, eu era uma garota negra que estava só de passagem."
Anos mais tarde, Mariah ficou cara-a-cara com uma conhecida comediante que usava a "nigger" (termo pejorativo para negro) quando se referia a Mariah e zombava da amizade dela com artistas do rap. "Essa é uma mulher que pertence a dois grupos a que eu não pertenço", diz Mariah levantando a voz. "Se eu algum dia dissesse qualquer coisa sobre esses dois grupos, as pessoas protestariam contra mim nas ruas. E você quer saber de uma coisa?" Ela abre suas mãos, "se eu fosse dois tons mais escura, haveria pessoas protestando por mim". Ao invés disso, Mariah ligou pessoalmente para a NAACP para reclamar. Ela diz que o programa da comediante saiu do ar como resultado.
"É fácil falar de mim", ela diz, dando de ombros. "Ninguém sente que precisa me proteger." É uma posição estranha de se estar. Toda a vida, Mariah admite estar desesperadamente tentando encontrar o seu lugar. E ainda, para melhor ou pior, ela tem consistentemente reclamado de qualquer um que tente criar algum tipo de caixa para ela - literal ou figurativamente. Até mesmo se for o chefe o da gravadora dela ou seu marido - ou ambos.
re•la•ci•o•na•men•to s.m.
1. a conexão entre duas ou mais pessoas ou grupos e seus envolvimentos uns com os outros, especialmente quanto a como eles se comportam e sentem entre si e se comunicam ou cooperam
2. uma amizade emocionalmente próxima, especialmente aquela envolvendo relações sexuais
Durante os quatro anos em que viveu na enorme propriedade de 20 milhões de dólares que ela comprou com seu marido Tommy Mottola, Mariah sempre manteve seu livro-de-bolso por perto. Se ela estivesse na piscina interna (uma das duas, da casa), em qualquer lugar nos 56 acres do terreno, ou apenas na sala de estar assistindo televisão com amigos, ela sempre tinha seu livro-de-bolso bem ao lado dela. Mariah levanta uma sobrancelha para a descrença da repórter. Em uma mansão de milhões de dólares pela qual ela insistiu em pagar a metade, ela nunca andava sem seu livro-de-bolso? Mariah balança a cabeça vagarosamente.

"Apesar daquela casa ser minha, a única coisa que eu sentia que era minha, era o meu livro-de-bolso. Tommy nunca soube porque eu sempre tinha a minha bolsa comigo. Mas na minha mente, eu pensava, 'se alguém aparecer... estou pronta'. Eu vivi assim por muito tempo. Eu costumava desejar, esperar e sonhar que alguém me seqüestrasse."
"É engraçado, durante aquela época, todas as minhas músicas eram como, 'sweet sweet fantasy baby (doce doce fantasia querido)' e 'dreamlover come rescue me (namorado dos sonhos venha me salvar)' - e então logo que fiquei solteira tudo era sobre" - Mariah dá uma sacudida de ombros e começa a cantar, 'Honey you can have me when you want me... (Querido você pode me ter quando você me quiser...)'. Ela cai na risada e depois balança a cabeça. "Eu nem mesmo percebi isso quando estava escrevendo essa música."
Tommy e Mariah casaram-se em 1993, em uma cerimônia com moldes nas núpcias da Princesa Diana e Príncipe Charles. "Sim, todo mundo fala sobre isso", Mariah gaba-se. "Mas ninguém me viu na lua-de-mel, correndo pela praia, triste, chorando e sozinha." Mariah volta a si e balança uma mão no ar como se dissesse, "eu não preciso entrar nesse ponto". Mas ela quer. E ela entra. "É parte da minha história", ela disse, colocando a mão sobre o peito, "se você está falando comigo sobre quem eu sou, esse relacionamento moldou quem eu sou. Mais do que moldou. Eu ainda tenho pesadelos com isso.".
Mariah mantém que, inicialmente, Tommy era charmoso. Mas muito antes, o relacionamento tornou-se sufocante. Havia sessões de terapia de casal. "Eles não fizeram nada por mim porque eu não podia falar sobre mim e meus problemas de infância. Era apenas uma ferramenta para entrar na minha cabeça."
E então havia os criados que nunca a olharam nos olhos. "Era como se toda a vez que eu aparecia, de alguma forma, todos estavam cuidando dos seus serviços. Só depois que fui embora que descobri que disseram a eles para nunca olharem nos meus olhos."
Além do ocasional pesadelo, é óbvio que Mariah ainda guarda lembranças do casamento. Tommy Mottola foi seu primeiro parceiro sexual. Mas a união deles não era satisfeita nesse sentido. "Meu relacionamento com meu marido não era físico. Apenas não era."
Hoje, sete anos após o divórcio, Mariah insiste que ainda pode contar em mão quantos parceiros sexuais teve. Em alguns sentidos, ela se orgulha disso. "Eu nunca tive a necessidade de estar com muitas pessoas. Eu sempre me concentrei em outras coisas." E em outros sentidos, ela vê a sua falta de namorados como um ponto fraco. "Eu gostaria de ser mais experiente", diz. "Eu sinto que em certos relacionamentos, se eu fosse mais experiente, talvez as coisas tivessem sido diferentes."
E então, é claro, há o indispensável alguém-que-foi-embora. No seu caminho de volta do quarto de fotos para o andar de cima, ela passa pela cozinha. Na parede está pendurado uma foto emoldurada de Tupac Shakur dentro de bolha de sabão. Ela se empolga como uma fã ao apontá-la.
"Todos sempre me disseram que ele gostava da minha música e eu sempre me senti lisonjeada por isso." Quando questionada se eles alguma vez haviam se encontrado, Mariah deixa escapar um suspiro. "Mmm hmmm", ela diz. "Mas foi muito rápido. Foi no Grammy. Ele estava dirigindo um Rolls Royce branco - isso foi quando eu ainda estava com Tommy - e ele parou e eu o vi, ele disse, 'ei Mariah'."
Ela faz sua melhor atuação de Tupac-em-um-Rolls-Royce-branco: uma mão no volante, um braço para fora da janela. "Eu apenas disse olá e então entrei. Ele disse, 'tchau Mariah', e eu corri para dentro assim..." Ela corre subindo as escadas para seu esconderijo, suspendendo um imaginário vestido longo e olhando melancolicamente para trás. "Ahhhh", ela murmura, meio rindo. "Teria sido perfeito."
fa•mí•lia s.f.
1. um grupo de pessoas vivendo juntas e funcionando como um lar, geralmente consistindo em pais e seus filhos
2. um grupo de pessoas relacionadas entre si por descendência, casamento ou adoção
Ter permanecido virgem até o casamento e não ter tido muitos relacionamentos sexuais desde então, tem muito a ver com outro relacionamento – aquele que Mariah está legalmente proibida de comentar – assim como com seu ex-marido. A irmã de Mariah, Alison Carey, estava grávida e casada aos 15 anos de idade. Mariah tinha cinco.
“O que eu vi quando era criança...crescendo, eu vi o que a promiscuidade pode fazer com você. Eu vi algumas pessoas usarem o sexo como uma forma de se sentirem desejadas e amadas. E eu vi o comprometimento de uma vida inteira que vem com uma criança.”
O filho de Alison, Sean, sobrinho de Mariah, é um dos parentes mais próximos dela. “Ele é como um irmão para mim”, ela explica. Com uma futura graduação em Cornell e uma graduação em Direito em Harvard, Mariah prevê que seu sobrinho será “o primeiro presidente negro”. O orgulho dela é visível, mesmo quando ela escolhe cuidadosamente suas palavras ao falar sobre a infância problemática dele.
Há quatro anos, a mãe de Sean, Alison, vendeu um livro, Mariah and Me (Mariah e Eu), cujo propósito era revelar que Mariah devia sua carreira a sua irmã, porque ela supostamente trabalhou como prostituta para cobrir as despesas de gravação de Mariah. A veracidade ou não da história foi encoberta pelo escândalo de ter uma irmã indo à imprensa com uma história tão sórdida. (No quarto com todas fotos em molduras prateadas, Mariah mostrou a graduação de Sean em Harvard e o irmão dela, Morgan, fazendo uma pose de artes marciais. O nome de sua irmã não foi mencionado, ela não foi mostrada em nenhuma das centenas de fotos.)
A família de Mariah, de fato, parece ser as pessoas próximas a ela: seu pessoal, amigos próximos e empregados que vivem em seu apartamento no centro da cidade. O pai dela faleceu há dois anos; a mãe vive fora da cidade, no norte do estado de New York. O irmão dela é instrutor de academia em Los Angeles. Nana Addie faleceu anos atrás. Ela tem muitos primos e parentes distantes espalhados pela cidade, mas ela parece estar mais próxima aos empregados do que de qualquer parente de sangue.
Primeiro há Ruby, a mulher jamaicana que é e não é a empregada. “Eu não quero dizer que ela é minha empregada, porque ela é como uma mãe para mim”, diz Mariah. E há Rachel, uma afro-americana de fala fácil que volta e meia aparece na sala para ver se Mariah precisa de alguma coisa. “Rachel é minha amiga. Ela está me ajudando porque estou sem assistente pessoal no momento. Mas ela é minha amiga. A filha dela é como se fosse minha afilhada.” Sua assessora de imprensa, Marvet Britto, entra e sai da casa como se tivesse suas próprias chaves. Mariah apenas dá de ombros. “As pessoas que trabalham para mim acabam tornando-se muito próximas de mim.”
car•rei•ra s.f.
1. um trabalho ou ocupação considerada como uma atividade duradoura ou vitalícia
2. progresso de uma pessoas em uma profissão escolhida ou durante sua vida profissional
3. o caminho comum ou progresso de alguém ou alguma coisa
Por definição, Mariah é uma carreirista desde o colégio. Isso foi quando ela competiu com Rachel Wifall pelo papel principal no musical da escola. “Eu estava certa de que tinha conseguido o papel”, diz Rachel, soando um pouco pensativa. “E então descobri que ela havia pegado o papel ao invés de mim. Eu nem mesmo sabia que ela cantava.”

Dependendo de onde você obtém seus números, Mariah Carey é a cantora de maior vendagem de todos os tempos – ou algo muito próximo a isso. Sua produção bruta é impressionante – 11 álbuns em 12 anos. Dois álbuns, Music Box e Daydream, foram certificados pela RIAA por dez milhões de cópias vendidas. Em uma estimativa mais conservadora, ela vendeu mais de 150 milhões de discos no mundo inteiro. Mas ela nunca obteve o devido respeito que algumas certificações Diamante deveriam dar a uma cantora-compositora-produtora. No início, a imprensa costumava dizer que ela era uma criação de estúdio de Tommy Mottola, não comentando o fato de que cinco das músicas que ela escreveu antes de assinar seu contrato tornaram-se No. 1.
“Eu ainda dou entrevistas onde as pessoas comentam o fato de que escrevi as músicas do álbum. E eu digo, ‘Sim, como eu fiz em todos os álbuns’. Ou elas mencionarão que estou trabalhando com um novo produtor do momento e direi, ‘Bem, na verdade, Jermaine Dupri e eu escrevemos “Always Be My Baby”, um dos meus maiores sucessos. E eu o conheço desde da época de Kriss Kross’.”
Ela também sente que não foi dada a ela a mesma chance de crescer – e cometer erros – que tiveram seus contemporâneos.
“No início, eu queria ser levada a sério. Não queria ser tratada como uma atração adolescente. Mas quando amadureci… acho que muitas pessoas não querem que a garota que pode cantar as notas longas seja sensual. Eu sei que fui além da conta com isso, mas por causa da minha voz e pelo que é aceitável pela maior da América, eu não deveria ser sexy.”
Talvez uma cantora séria não devesse deixar seu rebolado, gemidos e todo seu apelo sensual sobressaírem mais que suas cordas vocais?
Mariah revira os olhos.
“Patti Labelle não usa roupas até o pescoço! Minnie Riperton apareceu com saias curtas, lambendo sorvete. Até mesmo Barbra Streisand!” Mariah pula do sofá e arrebita a bunda, imitando a pose reveladora da capa do álbum de Streisand de 1979, trilha-sonora de “Negócios Com Mulher Nunca Mais (The Main Event)”. “Ela mostra as bochechas da bunda desse jeito...ela até fez cenas de nudez em filmes e está tudo certo.”
Mariah lamenta o fato que ela nem mesmo pode ser a garota principal em um clipe de rap. Ela canta um sussurrante refrão em “U Make Me Wanna” de Jadakiss e só teve uma pequena participação especial no clipe. “Eu deveria ter sido a garota principal nesse clipe!”, ela diz. “Eu poderia ter feito e faria”, mas ela diz que “seu pessoal” não concordou com tal papel em um clipe de rap. “Não pude brigar muito por isso porque tenho que guardar minhas batalhas para os meus próprios projetos.”
Mas não foi apenas sua evolução das blusas de flanela a roupas de banho apertadas que irritou os críticos. Mesmo quando ela estava quebrando recordes de vendas e de sucessos, Mariah Carey foi consistentemente criticada por ser vulgar, não fazer música de qualidade e abusar de suas ginásticas vocais e notas tão altas que doem no ouvido. O primeiro problema vem da tentativa de definir o que ela faz exatamente. Críticos não são gentis com a música pop. (Jornalistas antiquados similarmente criticaram muito da carreira de Whitney Houston, até mais, porque Whitney não escrevia suas próprias músicas.) A voz de Mariah, com toda sua extensão, vibrato e melisma, está a altura da voz de Houston. Mas também, como Houston, ela muitas vezes usou sua voz mais como uma arma do que como um veículo de expressão.
Mariah argumenta que compor músicas é sua verdadeira paixão e sua válvula de escape para criatividade. A voz dela é um instrumento: suas notas altas, um às na manga. Com muito poucas exceções, a performance de Mariah raramente teve a intensidade para ser classificada como música soul. Caso em questão: Carey poderia facilmente ter gravado a performance sofrida de Beyoncé na melodramática “Dangerously in Love”. (Que é, de fato, similar, no conceito, ao single de estréia de Mariah em 1990, “Vision of Love”.) Mas Beyoncé apóia-se firmemente tanto no R&B quando no pop, que foram permitidos co-existir.
É como se a música de Mariah fosse birracial também. Ambos os lados a aceitam. Nenhum deles realmente a limitam. E quando ela falhou – como aconteceu espetacularmente com o filme Glitter e sua respectiva trilha-sonora – ambos os lados exibiram níveis de prazer causados pela desgraça dos outros geralmente reservados para políticos corruptos – e Martha Stewart.
“Quantos trabalhos de insira o nome de uma estrela aqui não são assim tão bons?”, ela pergunta retoricamente. “Eu sinto que se esse filme tivesse sido uma prioridade, eu teria tido a mesma quantidade de apoio que Marshall Mathers recebeu da Interscope e Jimmy Iovine. Eles trataram Eminem como alguém que rendeu muito dinheiro para aquela companhia, e eu rendi mais de um bilhão de dólares para a Sony. O filme deveria ter sido conduzido de forma apropriada e não foi. Eu tive que lidar com mais dificuldades do que conseguia. Glitter foi um erro. Ponto. Eu adoraria que as pessoas pudessem ver Testemunhas Contra a Máfia (Wisegirls) com Mira Sorvino. Esse filme recebeu aplausos de pé no [Festival] Sundance.”
F. Scott Fitzgerald disse que não há segundo ato nas vidas dos americanos. Mas no entretenimento, há terceiro e quarto atos. Pergunte a Flavor Flav.
Desde o álbum 10x-platina, Daydream, de 1995, as vendas de Mariah caíram de maneira significante. Seu último álbum em estúdio, Charmbracelet de 2002, vendeu um milhão de cópias. The Emancipation of Mimi é o seu mais novo trabalho. É uma volta às origens – as altas notas, que Tommy disse a ela para abaixá-las depois do segundo álbum, estão de volta. Ela tem baladas poderosas com coro, a faixa obrigatória com rapper-no-refrão e algumas músicas de festa, incluindo o primeiro single, “It’s Like That”, produzido por Jermaine Dupri. O que é mais prazerosamente surpreendente é que depois de quinze anos, sua voz está tão clara como no verão em que “Vision of Love” ganhou as rádios.
The Emancipation of Mimi é inegavelmente um álbum pop, como todos os elementos do hip-hop e R&B que ela abraçou no passado recente. Como ele será recebido é difícil prever. Seus fãs incondicionais não precisam de convencimento. Mas quantos destes sobraram? Depois de quinze anos e centenas de milhões de discos vendidos, Mariah não precisa mais de nenhum dinheiro ou fama. Mas seu legado – como uma artista, não em números – ainda precisa ser consolidado, é uma daquelas coisas que dinheiro não pode comprar.
va•li•dar vtd
1. confirmar ou estabelecer a autenticidade ou sonoridade de alguma coisa
Velas perfumadas iluminam a pequena sala no topo do arranha-céu de Mariah. É um lugar aconchegante, decorado com confortáveis sofás, mantas e porta-retratos de Mariah com amigos. Depois de algumas horas de conversa aqui, ela falou sem parar, mal esperando pelo final de uma pergunta antes de começar um monólogo. Ela fala com as mãos e mantém um intenso contato com os olhos. É difícil acreditar que alguém sobre quem a mídia tem falado a mais de uma década ainda sinta que tem algo novo a dizer. Mas ela está tão ávida para fazer do disco um sucesso quanto um novato.
Ela mora em Manhattan agora – em uma cobertura. Ela tem mais de um banheiro só dela. E ela é famosa – não famosa como Michael Jackson – mas ela é famosa.
“Quando era pequena, se alguém me perguntava se eu queria ser famosa ou rica, eu dizia famosa. Eu pensava que isso validaria a minha existência.” Validou? Mariah abre a boca para falar, mas nada sai. Ela franze as sobrancelhas e morde os lábios...toma um gole de água, olha para o teto. Silêncio. Finalmente: “Eu não sei.”
The Emancipation of Mimi chega às lojas 12 de Abril.
America - mar 05