Mariah Brasil

Allure

O segundo ato de Mariah
Após levar-se até o limite, Mariah Carey está de volta com um novo álbum e uma nova determinação mais cuidadosa com ela mesma.

As pessoas têm uma impressão errada de Mariah Carey. Em um tarde jantar de lagostas e camarões, antes de partir num jatinho particular de New York para Amsterdã, ela mexe constantemente na cintura de seu vestido: um longo vestido preto enfeitado com borboletas. "Está vendo este bonito vestido?", ela diz. "É o meu vestido de avião, porque ele não amassa. Eu o visto quando quero estar confortável. Você poderia pensar 'Oh, ela anda por aí usando um vestido de festa...' Mas isso não é o que as pessoas usam para voar? Ou melhor, o que as pessoas usam?"
Como ela poderia saber? Essa é uma pessoa que não viaja em vôos comerciais; que tem um quarto inteiro na sua casa apenas para seus sapatos; que nem mesmo pode tomar um gole de vinho no jantar desta noite sem que um estranho coloque o telefone celular na cara dela, falando, "Fale com meu amigo em Los Angeles! Ele é seu maior fã!" (Ela graciosamente atende.) Ela está sob constante análise, objeto de infinita especulação - mesmo nos assuntos mais íntimos. Como seus seios. Reconhecidamente, seus seios raramente estão escondidos sob uma gola alta. Essa noite, eles estão livres, sem sutiã, e perfeitamente evidentes sob seu bonito vestido de avião. E uma vez que estamos bebendo e conversando como um grupo de velhos amigos, tenho que perguntar a ela: "Eles são reais?".
"Sim", ela diz sem se alterar, apertando-os entre seus braços para demonstrar. "Está vendo?" Então ela belisca uma pequena porção de pele bem onde o braço encontra o seio, argumentando que isso é uma prova de autenticidade. Eu acredito nela... quero acreditar nela. Não posso estender a mão sobre a mesa para checar.
Quando as pessoas questionam os vestidos curtos, as blusas que deixam a barriga de fora e as poses provocativas, a estrela de 32 anos é rápida na explicação. "Faço poses desde os seis anos", ela diz rindo. "Meu pai guardou todas as fotos de mim de biquíni achando que eu era o centro das atenções. É tudo uma questão de diversão e roupas. Quando meninas, de que brincamos? Nós não brincamos com bonecas de uniforme de escola. Brincamos com Barbie."
Ela sinaliza para o garçom com sua mão de unhas feitas à francesa e pede que ele leve as cascas de lagosta. "É estranho porque tive um relacionamento com alguém muito mais velho [ela tinha 18 quando conheceu seu futuro marido, o presidente da Sony Music, Tommy Mottola, que tinha 38]. Muitas meninas que eu conhecia eram sexualmente ativas, mas eu não. Eu era apreensiva, devido às coisas que via, como gravidez na adolescência. Eu posso ter andado com roupas apertadas, mas parava aí. [No meu trabalho] nunca fiz nada que fosse leviano. Há uma certa porção de humor e meninice porque esse é o espírito que trago. Eu não me levo muito à sério. Para mim, tudo é diversão e brincadeira."
É claro que há um lado mais obscuro. Ela freqüentemente fala sobre o que ela chama de "o sentimento de estar do lado de fora", um sentimento que vem de ter crescido como uma criança de raças misturadas. Em sua música "Outside", ela canta, "It's hard to explain (É difícil de explicar)/inherently it's just always been strange (inerentemente isso sempre foi estranho)/neither here nor there (nem aqui nem lá)/always somewhat out of place everywhere (sempre de alguma forma deslocada em qualquer lugar)". Mas em 1990, quando seu primeiro disco, Mariah Carey, vendeu milhares de cópias e lhe rendeu o Grammy de artista revelação, a cor da sua pele era irrelevante. O single "Vision of Love" não trazia identidade racial quando era tocado nas rádios a cada segundo. Não vinha com um adesivo que dizia "produzida por mãe irlandesa e americana e pai afro-venezuelano". Era puro, pós-adolescente, emoção romântica expressada simplesmente por uma voz excepcional. Quando o single chegou ao primeiro lugar das paradas R&B e Pop e lá permaneceu, era uma previsão da história da artista de maior vendagem dos anos 90 e a consolidação da imagem de Carey: nem negra, nem branca, ela estava fora dos rótulos raciais. E ironicamente, todos os privilégios que vieram junto com o sucesso: ajudantes e os sempre presentes guarda-costas, apenas a fizeram se sentir mais deslocada. Ela se sente sempre deslocada.
Após doze anos de estrelato, dez álbuns multiplatina e 15 músicas número-um, a linha entre o real e o falso torna-se irrevogavelmente muito estreita. Nos olhos do público, Carey não é uma pessoa com baixa taxa de glicose no sangue e pele realmente sensível, ou alguém que grava no estúdio até as três da manhã para conseguir músicas perfeitas, as quais ela mesma escreve. Ela é um desenho animado: uma bonequinha, com um enorme cabelo, diamantes, luzes e um séqüito grande o bastante para povoar um pequeno país. Nos olhos do público, a história dela é vista como um roteiro ruim de cinema. E que na verdade tornou-se um roteiro ruim: Glitter. A superestrela teve um "total colapso físico e emocional", de acordo com uma nota oficial da sua assessora de imprensa. O filme fracassou, a trilha-sonora foi lançada no dia 11 de Setembro com críticas ruins e sua gravadora a demitiu. Mas isso não foi muito ruim.
Agora, 18 meses após esse tropeço, Mariah Carey está de volta ao seu caminho e aos seus negócios - ou melhor, ao seu estrelato, uma vez que ela chega duas horas e meia atrasada para o jantar. Num turbilhão de loucuras, alguém do escritório dela liga para o dono do restaurante pedindo que ele diminuísse as luzes antes que Carey chegasse porque os olhos dela a estavam incomodando. Sua assessora já estava lá fazendo controle e explicando que a gravação de um programa para o canal BET demorou muito e que depois Carey teve uma entrevista com o jornal USA Today, e que um pessoal de filmagem do canal VH1 está a seguindo durante o dia todo.
Seguindo a agitação, Carey é genuinamente cheia de desculpas e parece um pouco envergonhada com o tumulto que a rodeia. E você tem que se perguntar, ninguém aprendeu nada com o colapso da estrela um ano atrás? Será que ela está bem?
"Estou bem", ela diz com sua ríspida voz. "Pareço bem para você? Aqui está o ponto. Eu estava bem. O que eu precisava era umas duas semanas de descanso. A maioria das pessoas tem fins-de-semana de folga. E depois elas têm umas pequenas férias no verão e depois têm as festas no fim do ano. Eu era um a pessoa que trabalhou, sozinha, no último ano. Trabalhei 21 horas por dia durante dois meses seguidos. Todo o problema do ano passado foi devido minha exaustão e nunca comer e dormir. Você acaba preso numa espiral. Você se negligencia." Carey se negligenciou artisticamente também. Quando escapou da gaiola de ouro, ou "Cante Cante", como ela se refere à casa que dividia com Mottola, ela finalmente teve a liberdade criativa que tanto almejava. E ela correu para o hip-hop. Ninguém duvida da afeição dela pelo estilo em que ela cresceu. Mas em algum lugar entre os remixes dos Neptunes, as colaborações com Jay-Z, os raps, ela quase se tornou uma artista convidada nos seus próprios discos. A mulher que mais trabalha no mundo da música estava perdendo o controle.
Carey suspira profundamente e toma um gole de Cabernet. "Eu era como um pai ou uma mãe tentando compensar o tempo perdido com seu filho", ela diz. "Eu saí de uma situação de muito confinamento [o casamento dela de cinco anos com Mottola que terminou em 1998], e eu estava presa na minha vida profissional também. E então me libertei do meu contrato com a Sony no meio da gravação [da trilha sonora de Glitter], e eu estava filmando Wisegirls [com Mira Sorvino]. Eu pensei 'por todo esse tempo eu tomei conta dos meus negócios, o quão difícil pode ser ir para outro lugar?'."
Ela é interrompida por um pager tocando dentro da sua bolsa Louis Vuitton. "Desculpe-me", ela diz. "É o pager de um amigo e eu não sei como desligá-lo." Ela o ignora e ajeita o cabelo (que parece natural da forma que os cabelos ficam após um dia à beira mar; os fãs dela o preferem encaracolado, e essa é sua concessão a eles). Ela volta a conversa novamente.
"Então eu disse, sei como fazer isso. Posso trabalhar 24 horas; já fiz isso antes. E, além disso, sempre fui eu quem tomou conta da minha família, e quem se preocupa com todo mundo acaba se negligenciando. Ok, avançando um pouco, eu estava exausta, e ninguém nunca tinha ouvido eu dizer não antes. Ninguém me permitia fazer isso, porque não estavam acostumados. Esse tipo de mundo em que estou, que eu mesma criei, não tem barreiras. Não estou culpando ninguém, porque fui eu quem permitiu isso."
As coisas estão melhores agora. Ela insiste em comer direito. E ela está mais preocupada com sua saúde (tanto que ela às vezes dorme numa cama em um quarto especial no seu triplex em TriBeCa, porque é bom para a voz dela). Quando pergunto a ela sobre o momento do seu colapso, ela de repente se ajeita na cadeira, sentando ereta. O médico que ela visita regularmente disse-lhe que não foi um colapso nervoso. "Fui hospitalizada por uma exaustão extrema", ela diz. E sob nenhuma circunstância, ela consideraria a hipótese de suicídio (nunca pensou nem em tentar como a imprensa especulou na época). "Minha hora de ir será quando Deus me levar." E além disso, no hospital em Connecticut onde descansou, ela acabou liderando as sessões de terapia em grupo, em vez que ela sempre procura cuidar de todos. "Eu não tenho problemas em dizer que faço terapia", ela diz. "E eu não fui para reabilitação. Mas se alguém me dissesse 'Você nunca mais poderá tomar outro gole de vinho', eu diria, 'Ok'." Então o que explica a agenda de trabalho compulsiva? "A procura por aceitação ou estabilidade", ela diz. "Medo de ter o tapete puxado debaixo de você. Olhe, eu não quero voltar a viver num colchão no chão."
Quando Glitter não vendeu imediatamente, a Virgin Records - gravadora em que ela foi trabalhar quando deixou a Sony - rescindiu o contrato dela após menos de um ano. Várias novas gravadoras estavam a cortejando quando ela saiu e foi para Capri começar a trabalhar em Charmbracelet, o que ela chama de "um intenso ponto de virada, como Butterfly". O resultado é um álbum emocional com alguns rappers e produtores de primeira linha, mas as baladas estão de volta - e nelas, Carey planta seus pés e canta.
Ela assinou contrato com a Island Def Jam agora, onde o empresário do hip-hop Lyor Cohen está apostando nesse disco como um grande sucesso. O primeiro single "Through The Rain", já é um grande sucesso no rádio, então não é uma aposta infundada. A verdade é que Glitter vendeu bem - mais de dois milhões de cópias - e qualquer um que ainda esteja rindo do filme, deveria ver a obscura comédia Wisegirls, que estreou no canal Cinemax no último Novembro. Ela rouba cena após cena como uma desembaraçada garçonete que lida com mafiosos como se fossem os valentões do colégio. Ela está divertida, sexy e completamente à vontade. Outro ponto de virada.
Depois que Carey e Cohen acertaram o contrato dela (estimado em 21 milhões de dólares por três álbuns), ele relatou alguns detalhes ao jornal Financial Times de Londres: "Eu disse [para Mariah], 'Qual é a sua vantagem competitiva? Uma grande voz, é claro. E o que mais? Você escreve cada uma das suas músicas - você é uma grande compositora. Então por que fugir dessas vantagens?'... E como dirigir uma Ferrari na primeira marcha. Você não verá do que a Ferrari é capaz até que você chegue à sexta marcha". Esse som que você está ouvindo? É Carey passando à terceira marcha.

Allure - jan 03
traduzido por Vany


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