Mariah Brasil

Allure

A Emancipação de Mariah

Com mais sucessos número 1 do que qualquer outra artista, um novo senso de liberdade, e muitos diamantes, Mariah Carey finalmente se sente como ela mesma. Por Kevin Sessums.


Um aviso “No Moleste” está pendurado na maçaneta da porta da suíte em um dos últimos andares do New York Palace Hotel, onde Mariah Carey está morando. Devo bater? Embora sejam 5 horas da tarde, a Diva da noite ficou até tarde na noite anterior celebrando o aniversário de L.A. Reid, CEO da Island Def Jam Music. Ignorando o aviso, decido arriscar. Eu sei que Carey é gosta de rappers, mas eu só fazer uma batida do único jeito que um mirrado garoto branco sabe – com as juntas dos meus dedos.

Uma empregada de pés descalços atende à porta e me leva a um elevador privativo, que nos leva ao andar superior. Sem sutiã e descalça, Carey entra no cômodo em um vestido frete-única floral de chiffon. Sua maquiagem é impecável e seu luminoso cabelo louro está perfeitamente liso. Ela estende sua mão, com unhas recentemente feitas, e enquanto me curvo para beijá-la, tento sem sucesso não olhar diretamente para o seu amplo decote.

Carey me oferece um refrigerante, coloca um para ela, e me convida para sentar perto dela no sofá. A estrela de 35 anos de idade esconde seus pés descalços sob o vestido e confessa que ela mal dormiu depois da festa de aniversário de Reid. Ele é o responsável por The Emancipation of Mimi, o primeiro álbum do contrato de 20 milhões de Carey com a Island Def Jam. Nesta semana em particular, o CD atingiu novamente o primeiro lugar no país, junto com o single “We Belong Together”. É sua décima sexta música número 1, o que faz dela a cantora de maior vendagem na história da música: Apenas os Beatles e Elvis Presley tem mais sucessos número 1. “Mariah e eu rimos quando as pessoas chamam isso de retorno dela”, diz Randy Jackson, um dos juízes do programa American Idol, quem produziu faixas em todos os dez discos de estúdio de Carey. “O retorno dela de onde? Ela nunca foi embora. Depois de Nat King Cole não existiu um tom como o dela – aquele som doce e suave. E, cara, Nat King Cole não tinha o alcance de sete-oitavas que ela tem.”

Jackson e Carey podem rir o quanto quiserem do termo “retorno”, mas como mais alguém poderia descrever o estado atual da vida e da carreira dela após o fracasso público de seu filme Glitter, que foi lançado no dia 11 de Setembro de 2001, e o colapso emocional que a levou a dois hospitais? Quando toco no assunto, a voz dela abaixa em uma daquelas suas oitavas mais baixas, e ela brinca com seus brincos de diamantes gigantes em forma de coração. Um anel de diamantes de borboleta – do tamanho de uma monarca ou uma Mothra – brilha no dedo dela. “Eles não podem ser verdadeiros”, eu digo, apontando para os brincos.

“Sim, eles são”, ela diz. “Eu os dei para mim mesma.” Dada a fortuna dela estimada em 300 milhões de dólares, e o fato de que ela teve poucos relacionamentos amorosos sérios, isso faz sentido.

“Este é de verdade também?” Pergunto olhando para a borboleta em seu dedo. “Sim, é sim”, ela diz. “E esses?” Pergunto, apontando o decote dela.

Carey cai na risada. “Todas as minhas jóias estão aqui para serem admiradas”, ela diz. A voz suave dela interrompendo os risos. Na verdade, a voz e o comportamento de criança de Carey devem-se um pouco a Marilyn Monroe, quem ela idolatra. “Eu tenho o piano de Marilyn Monroe”, ela diz. “É um piano de cauda branco. É entalhado e tudo mais. Eu tentei tê-lo afinado, mas ele é de 1937, e não importa tê-lo afinado. Importa é tê-lo. Ele está em um armazém por causa do problema de vazamento de água que tive no meu apartamento. Eu aluguel uma casa em L.A. até que consertem. E enquanto estou em New York, fico aqui no Palace”, ela conta, com uma pontinha em sua voz que prova que ela está fazendo piada sobre os altos-e-baixos na sua vida de “conto de fadas”.

Enquanto algumas pessoas acreditem na sua vida de “Era uma vez...”, os verdadeiros amigos de Carey conhecem o contrário. “Depois da festa na noite passada, eu passeei de carro pelo Harlem com [o rapper] Cam’ron na Lamborghini dele, e nós conversamos sobre a vida, amor e outras coisas. As pessoas com quem eu me relaciono são pessoas quem passaram por certas coisas e superaram algumas dificuldades ao contrário de uma pessoa que sempre teve tudo”, Carey diz. Meus amigos passaram por algum tipo de intensidade, algum tipo de adversidade, algum tipo de obstáculo que eles tiveram que superar. E a maioria dos caras que conheço que estão no hip-hop tiveram que lidar com isso. Alguém me perguntou se me incomodava que as pessoas pensassem que tive essa vida de conto-de-fadas, quando na verdade minha infância, na média, foi difícil”, ela diz. Crescendo em Long Island, os carros da família foram queimados e os cachorros envenenados porque a mãe dela era branca e o pai, negro. Seus pais divorciaram-se quando ela tinha três anos. A mãe dela tinha o sonho de ser uma estrela da ópera, mas nunca conseguiu ter uma casa estável, e eles se mudaram 13 vezes antes que Carey se graduasse no colégio. Ela faltava tanto às aulas que seus amigos lhe apelidaram de “Miragem”. “Mas hoje eu sou totalmente liberal porque cresci com uma mãe que é muito artística”, ela diz agora. “Eu também tive que ser um pouco adulta muito cedo na minha vida. Quando alguma coisa acontecia, sempre cabia a mim pegar o telefone para pedir ajuda. Eu não gosto de ser muito específica sobre isso porque minha família pode se ofender. Vamos apenas dizer que existe muita dicotomia na minha vida, e eu aprendi a aceitar que isso é o que faz de mim quem eu sou. Isso é o que me conecta com uma grande parte do meu público. Muitas crianças birraciais me dizem o quanto as minhas músicas significam para elas, porque elas não sentiam que se encaixavam em algum lugar, mas agora elas têm algo a aspirar. Era assim que eu me sentia quando era criança – esse sentimento de não se encaixar.”

Carey alguma vez quis que sua pele clara fosse mais escura? “Eu só queria ser uma coisa ou outra. Eu estava com meus primos no South Bronx e as crianças de fora diziam: ‘Essa não é sua prima. Ela é branca.’ E enquanto isso, eu realmente não parecia branca para as pessoas brancas”, ela diz. “Se eu ia a lugares com meu pai, sempre havia alguém com um olhar de desprezo ou uma expressão de reprovação.”
Carey também teve problemas com outros membros da família. Há alguns anos, sua irmã mais velha, Alison, supostamente tentou vender um menos que favorável livro sobre a vida dela com Mariah. A estrela é, entretanto, ainda próxima de sua mãe, Patrícia, e seu irmão mais velho, Morgan, que é treinador e lutador de kickbox em Los Angeles. Seu pai, Alfred, recentemente faleceu de câncer. “Foi horrível o que ele passou”, Carey diz. “Eu fiquei muito feliz por ter conseguido passar um tempo com ele antes que ele falecesse e que discutimos nossos problemas. Eu nunca soube quantas coisas ele guardou da minha infância – coisas que fiz para ele quando eu tinha três anos – fotos sentimentais e coisas que ele me devolveu.” Ela pára por um segundo e ajeita seu vestido em volta de seus pernas nuas. “Quando ele estava no hospital, ele quis que eu e minha irmã nos reuníssemos. Nós estivemos lá ao mesmo tempo muitas vezes, então... ahhh... nós nos reconectamos naquele ponto. Algumas coisas apenas ficam melhores à distância.”

Carey é paciente e calma enquanto fala sobre seus dolorosos problemas com Alison. Quando perguntei sobre a alegação de sua irmã de que ela tornou-se prostituta para pagar a fita demo de Mariah, Mariah respira fundo antes de responder. “Qualquer coisa que alguém faça, é por suas próprias razões. E eu não estou comentando sobre ela quando falo isso. Estou apenas sendo verdadeira. Mas meu irmão pagou minha primeira fita demo. Cinco mil dólares. Isso era muito dinheiro para a gente naquela época. Por favor, vamos mudar de assunto.”

“Ok. Tommy Mottola.”

”Oh, Deus!” Ela diz, revirando os olhos e deixando escapar uma risada. “Do ruim para o pior.”

Aquela fita demo famosamente encontrou seu caminho para as mãos de Mottola, o futuro chefe da Sony Entertainment. Mottola e Carey começaram um relacionamento profissional e então, um pessoal (apesar dos 20 anos de diferença entre eles) que culminou em um grande casamento na cidade de New York, em 1993, depois que o executivo da música divorciou-se de sua esposa de longa data. O casamento foi um evento grandioso, cheio de estrelas presentes – Carey usou um vestido de $25.000 dólares com uma cauda de mais de 8 metros – mas os problemas começaram logo na lua-de-mel. “Foi terrível”, ela diz. “Foi uma lua-de-mel horrível. Eu acabei chorando na praia sozinha… Tommy foi a primeira pessoa com quem estive sexualmente, embora eu não fosse virgem na nossa noite de núpcias. Eu também não sabia que ele era casado quando o conheci.” Os dois ficaram juntos por oito anos, quatro casados, antes que ela ganhasse coragem para pedir o divórcio. Mas deve ter havido bons momentos durante aqueles anos, certo? “Houve momentos felizes, como quando um dos vídeos era lançado”, ela diz impassível. Algum arrependimento por ela e Tommy não terem tido filhos? “Não! Não! Não! Não era a coisa certa para mim ter filhos com ele. Eu estou nos 12 anos eternamente. Não estou pronta para ter filhos.”

Carey faz uma pausa. “Já havia um elemento paterno no meu relacionamento com Tommy. Mas mais do que paterno, havia a estabilidade que ele me ofereceu, que representava algo que nunca realmente tive na minha vida. Ele me ofereceu um lar – não aquela mansão Cante Cante”, ela diz, usando seu apelido para a fortaleza de 10 milhões de dólares que o casal construiu em Bedford, New York, onde ela se sentia como um prisioneira que tinha apenas que – cantar e cantar – para pagar sua estada. “Tommy foi alguém que acreditou em mim totalmente. Eu precisava disso. Mas o aspecto autoritário do Regime”, como ela chama Mottola e seus tenentes na Sony Music, “já estava lá quando nos casamos. Era quase impossível me tirar daquilo tudo.” A voz de Carey torna-se nervosamente desconfortável, fazendo soar como se ela tivesse sido seqüestrada ao invés de se casado. “Eu queria que alguém viesse e me seqüestrasse naquela época. Eu costumava fantasiar sobre isso. Muito. Eu levava meu livro de bolso junto comigo o tempo todo no casode precisar escapar – é uma grande realização que eu não precise mais levá-lo. Eu costumava pensar que talvez pudesse haver um seqüestrador que pudesse me resgatar e ele não seria tão cruel.”

Um seqüestrador nunca apareceu, mas uma vez que ela separou-se de Mottola, Carey foi resgatada, de certa forma, pelo jogador do New York Yankees, Derek Jeter, um tipo de cavaleiro-numa-armadura-brilhante. “Derek foi uma boa figura de transição na minha vida, definitivamente necessária em me forçar a me tirar daquele outro relacionamento… bem, vamos colocar assim: Se você não sabe que tem algo mais lá fora, então você se contenta com o que tem.” Eu pergunto se é verdade que, uma vez que a Declaração de Independência afirma que nós fomos “dotados pelo Criador”, Jeter é mais dotado do que os outros, Carey ri com prazer. “Oh, meu Deus!” Ela grita, e então se recompõe. “Sem comentários, querido”, ela diz baixinho. “Coloque apenas isso.”

Carey é capaz de brincar sobre seu passado, aproveitar seu presente e tem esperança em seu futuro (ela está até planejando um musical na Broadway baseado em seu bem-sucedido álbum de Natal). Ela prefere chamar seu colapso de poucos anos atrás de uma “passagem”. Em um ponto, ela estava em perigo por ser colocada no mesmo grupo de Michael Jackson e Whitney Houston como superestrelas cujas carreiras viraram . Quando eu a comparo a eles e seus fracassos, ela fica em silêncio por alguns momentos. “Passar pelo o que passei tão publicamente me fez sentir famosa pela primeira vez”, ela diz finalmente. “Eu nunca senti isso antes, eu senti o lado ruim da fama. Sim, aquela época foi difícil para mim. Todos sabem disso agora. Mas eu superei.” Carey diz que é este é um momento incrível na vida dela, por ter os álbum e single números um ao mesmo tempo. “É uma loucura. Uma loucura boa”, ela é rápida em comentar. “Sabe, às vezes você está com uma pessoa muito famosa e se pergunta, ‘Onde eles estão?’.” Ela pára e balança a mão no frente do meu rosto para ilustrar o que diz. “É como se a fama delas passasse a defini-las. A diferença comigo, espero, é que eu nunca deixei essa coisa de ‘Mariah Carey’ me sobrepusesse, e eu nunca pensei que eu fosse essa outra pessoa. É um fenômeno interessante. Eu realmente quero escrever um livro um dia, especialmente agora que compreendo algumas coisas”, ela diz. Uma vez mais, Carey dá olhada para a borboleta que ela comprou para ela mesma em seu dedo. O anel pode captar a luz, mas é o brilho conseguido a muito custo nos olhos dela esses dias que deixam a última impressão.


Allure - set 05

traduzido por Vany


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